Choques geopolíticos colocaram essa agenda em segundo
plano, mas ela inevitavelmente voltará ao centro por forças microeconômicas e
pela intensificação dos riscos climáticos
Nos últimos anos, a agenda econômica da sustentabilidade
parecia ter se consolidado como um dos eixos centrais do capitalismo
contemporâneo. Energias renováveis, veículos elétricos, baterias, hidrogênio,
economia circular e finanças verdes ganharam espaço nas decisões de
investimento, nas políticas públicas e nas estratégias corporativas. A
combinação entre regulação, inovação tecnológica, pressão social e abundância
de capital criou uma trajetória de expansão que muitos interpretaram como
irreversível.
Esse quadro, no entanto, começou a mudar de
forma visível. Transformações geopolíticas recentes lançaram uma sombra pesada
sobre essa agenda. Nos Estados Unidos, a política econômica foi radicalmente
reorientada e o tema climático perdeu centralidade. Bancos recuaram de
compromissos voluntários ligados ao clima, empresas revisaram estratégias e
montadoras anunciaram cancelamentos de investimentos em veículos elétricos. O
setor de carvão, petróleo e gás voltou a ganhar protagonismo, inclusive no
acesso a financiamento, e até bancos multilaterais passaram a flexibilizar
restrições ao setor.
À primeira vista, tudo indica que a agenda econômica da
sustentabilidade perdeu tração
Na Europa, o movimento tem sido menos abrupto, mas não menos
relevante. O escopo e o orçamento do EU Green Deal passaram a ser questionados,
medidas ambientais foram flexibilizadas e a agenda verde passou a disputar
espaço com restrições fiscais, pressões políticas e a agenda de defesa. À
primeira vista, tudo indica que a agenda econômica da sustentabilidade perdeu
tração.
Mas será mesmo que essa agenda morreu? Há razões sólidas
para acreditar que ela pode desacelerar, mas dificilmente será interrompida. A
primeira é microeconômica. Em vários segmentos, tecnologias verdes já se
tornaram custo-eficientes, independentemente de subsídios ou incentivos
regulatórios. Em muitas regiões, a geração solar e eólica já é a forma mais
barata de expansão da oferta de energia. Quando uma tecnologia se torna
economicamente superior, ela tende a sobreviver mesmo em ambientes políticos adversos.
Além disso, novas tecnologias continuam a emergir em
diversos setores, não por altruísmo climático, mas porque reduzem custos,
aumentam a competitividade ou mitigam riscos. Eficiência energética, novos
materiais, agricultura de baixo carbono e soluções baseadas na natureza avançam
porque fazem sentido econômico. Essa dinâmica cria uma base estrutural que não
desaparece com mudanças de governo.
Uma segunda razão é o peso dos investimentos já realizados.
Cadeias produtivas foram estruturadas, ativos construídos e bilhões de dólares
comprometidos. Empresas não parecem dispostas a abrir mão desses investimentos.
Nos Estados Unidos, projetos iniciados sob incentivos da administração anterior
estão sendo judicializados após tentativas de cancelamento, justamente porque
há capital afundado, contratos assinados e expectativas de retorno. A economia
política dos investimentos cria inércia e resistência à reversão.
Há ainda o papel do sistema financeiro. Trilhões de dólares
foram alocados ou comprometidos com estratégias relacionadas à
sustentabilidade. Esses recursos não desaparecem simplesmente porque o ambiente
político se tornou menos favorável. Gestores de ativos, fundos de pensão e
investidores institucionais tendem a reagir para preservar valor, sustentando
os investimentos verdes.
Talvez o argumento mais poderoso esteja fora da esfera
política de curto prazo. A mudança do clima não vai parar. Ao contrário, seus
efeitos tendem a se intensificar, ampliando riscos econômicos concretos.
Eventos naturais extremos já afetam mercados imobiliários, infraestruturas
produtivas e cadeias de valor inteiras. Em diversas regiões, observa-se aumento
acelerado dos prêmios de seguro ou até a retirada completa da cobertura.
As implicações econômicas são profundas. Onde o seguro se
torna caro ou inexistente, o crédito desaparece. Sem financiamento, ativos
perdem valor, investimentos cessam e economias locais entram em declínio. O
potencial de destruição de riqueza é multibilionário, e pequenas empresas e
famílias de menor renda são especialmente vulneráveis. Cresce, assim, a
percepção de que a mudança do clima deixará de ser apenas um tema ambiental e
passará a ser tratada como questão de segurança econômica.
Enquanto Estados Unidos e Europa parecem paralisar ou
desacelerar, a China segue trajetória distinta. O país já lidera ou colidera
setores estratégicos como veículos elétricos, energia solar e eólica, baterias
e refino de minerais críticos. Sua posição dominante em terras raras e nas
cadeias de suprimentos associadas à transição energética foi construída ao
longo de anos. Com a retração de seus concorrentes, a tendência é que essa
vantagem se amplie, levando a posições quase monopolistas.
Isso tem implicações econômicas e geopolíticas profundas. Se
a agenda econômica da sustentabilidade retornar, como tudo indica que
retornará, impulsionada por forças microeconômicas e pela intensificação dos
riscos climáticos, o mundo se tornará ainda mais dependente da liderança
chinesa.
E onde entra o Brasil? O país possui um estoque de capital
natural sem paralelo. Energia renovável abundante, água, florestas,
biodiversidade, minerais críticos e terras raras criam condições para que
muitos negócios verdes sejam competitivos mesmo sem subsídios. O powershoring,
a relocalização de cadeias de valor intensivas em energia para regiões com
oferta limpa, barata e abundante, representa uma oportunidade econômica
singular.
Capturar esses benefícios, no entanto, exige estratégia. O
que se observa hoje é uma abordagem fragmentada e imediatista, que repete erros
do passado ao privilegiar a exportação de commodities, sejam minerais críticos,
hidrogênio verde ou datacenters, desconectados de uma política tecnológica e
industrial de agregação de valor. Falta ambição e uma visão integrada que
articule política industrial e comercial, inovação tecnológica e gestão
estratégica do capital natural.
A mensagem central é clara. A agenda econômica da
sustentabilidade não morreu. Ela atravessa uma fase de ajuste, tensionada por
choques geopolíticos e escolhas políticas de curto prazo. Seus fundamentos
permanecem ancorados em determinantes econômicos objetivos. A questão central é
quem estará melhor posicionado quando essa agenda inevitavelmente voltar ao
centro do jogo.

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