A mais recente aquisição para a minha lista de
desencantos é a brava oposicionista venezuelana
Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com
problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para
Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem
reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas,
atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola
no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou,
apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.
Há aqueles que nunca enganaram ninguém:
Trump, Toffoli, Roberto
Jefferson, Edir Macedo, Pablo
Marçal, Paulo Maluf, Silas
Malafaia. E nem precisa ser lombrosiano: o olhar cúpido, a mitomania, a
fala melíflua, a egolatria, o cabelo gomalinado — há sempre algo que levanta a
bandeirinha vermelha e avisa: perigo se aproxima.
Acreditei em Lula,
quando, em 2003, ele contou:
— Depois que ganhei a eleição, uma televisão fez uma matéria
em que aparecia um catador no Rio de Janeiro comendo um pedaço de melancia do
lixo. Ele dizia: “Talvez esse seja o último pedaço de melancia do lixo que vou
comer, porque o Lula, eleito presidente, vai ajudar a resolver esse problema”.
Lula chorou, e eu lacrimejei junto, feliz em ver um operário
na Presidência — alguém que, tendo passado por tantas privações, faria da
erradicação da miséria uma das prioridades de seu governo. Em vez disso, vieram
o mensalão, o petrolão, o triplex, os pedalinhos, os aloprados.
Bolsonaro não tinha uma única boa referência, mas não era
possível que fosse tão estúpido a ponto de... Pois ele foi. E foi com gosto. Às
vésperas da eleição de 2018, mandei-lhe por aqui uma carta aberta:
— Conservadorismo não significa atraso, intolerância. (...)
Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos e contará também com os que não
votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.
A fé dele era na cloroquina, no poder e na própria família.
Errou tanto, e numa escala tão monumental, que o país, entre perder ou deixar
de ganhar, deu outra chance ao PT.
Encurtando a história, sou bom em esperanças vãs. Como as
que acalentei por Sergio Moro (e
combinar camisa preta com gravata preta era um sinal tão claro...). Por Cármen
Lúcia (foi do “cala a boca já morreu” à “situação excepcionalíssima”
sem corar — e eu achando que ela seria daquelas de negar, quando é fácil
ceder). Me encantei com Jordan Peterson e sua crítica ao autoritarismo da
esquerda, aos excessos do politicamente correto — hoje olho e vejo um
narcisista, igualmente autoritário.
A mais recente aquisição para minha lista de desencantos é a
brava oposicionista venezuelana María
Corina Machado. A bravura virou sabujice; a oposição, entreguismo; o amor à
pátria, à liberdade e à democracia, algo que ainda carece de nome (nunca se
tinha chegado tão baixo a ponto de precisar palavra para isso no dicionário).
Lá em casa, quando alguma coisa não tinha volta, minha mãe
dizia “Adeus, Corina” —menção a um forró dos anos 60 (“Adeus, Corina, que eu
vou embora/Quem parte leva saudade/e quem fica também chora”). Há os que pegam
o bonde errado e vão até o ponto final (estão aí, até hoje, os stalinistas, os
fascistas...). Eu digo adeus, Corina, Luiz, Jair, Jordan, Sergio, Cármen — e
desço no próximo ponto.
Ainda bem que não sou influêncer de nada e não arrastei
ninguém comigo nos meus enganos. Mas perdão foi feito pra gente pedir. Nem que
seja só a nós mesmos.

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