Pensei em escrever um artigo sobre o discurso do
primeiro-ministro do Canadá em Davos. Mark Carney acha que vivemos um momento
de ruptura, e não de transição. A ordem internacional, que já não era grande
coisa, se rompeu para dar lugar claramente à lei do mais forte. Nesse contexto,
é preciso se preparar, pois quem não estiver na mesa estará no menu. Tema
importante para o Brasil, mas posso voltar a ele, algumas vezes, antes das
eleições.
Neste momento, tenho de escrever sobre o escândalo do Banco
Master. Não esperava, a esta altura da vida, aos 40 minutos do segundo tempo,
encontrar nosso país nesta condição patética. A nota do ministro Edson
Fachin, as manifestações do procurador-geral e o post de Gilmar Mendes
confirmam a ideia de uma cúpula judiciária unida para se blindar. Usando a
máscara de salvadores da democracia, querem impor uma situação marcada, como
diz um jornal alemão, pela ganância que afunda o STF.
No fundo, consideram ameaça à democracia questionar o
contrato milionário de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes,
com o Banco Master. Ou criticar o inacreditável ministro Dias
Toffoli por artificialmente levar o processo do Master para o Supremo
e sentar em cima dele com uma decisão de sigilo rigoroso.
Logo Toffoli, que vendeu parte de seu resort para a empresa
ligada ao cunhado do dono do Master. Logo Toffoli, que anulou uma multa de R$
10 bilhões da J&F e recebeu em seu resort um advogado da empresa como sócio
no mesmo resort. A imprensa diz que o resort é da família do Toffoli. A esta
altura, não escrevo sobre formalidade. Os donos são um irmão que é padre, outro
que vive numa casa modesta, e sua própria mulher desconhece a empresa dona do
resort.
Pessoalmente, a convite do deputado Capitão Augusto, conheci
o projeto da região, Angra Doce, e naveguei na Represa Chavantes. Ouvi algumas
pessoas mencionando o resort de Toffoli. Nos últimos dias, apareceu um vídeo
onde o ministro lá recebe um banqueiro e um empresario. Jornalistas que se
hospedaram no resort de Toffoli encontraram um pequeno cassino em seu interior.
Apoiar toda essa degradação é defender a democracia? O
Senado poderia fazer algo. Mas não faz por medo. Alguns senadores têm questões
no STF, outros temem a possibilidade de ter. Os mais à esquerda estão presos à
miopia da corrente política. Acham que, apesar de tudo, os ministros são
importantes para conter o adversário.
Não percebem que um Supremo corrompido pela ganância é
exatamente o combustível que impulsiona seus adversários? Não percebem que esse
estado patético das instituições fortalece o apoio popular a quem pode
destruí-las?Não percebem que a juventude está encontrando uma causa para sua
rebeldia? Fazemos leitura diferente da História, não só no Brasil, mas em
outros lugares do mundo. Consideram que tudo isso é secundário porque Lula é
imbatível nas eleições. É provável que estejam certos nesse cálculo. Mas que tipo
de país o vencedor herdará?
O deputado Nikolas Ferreira iniciou solitariamente uma
marcha e chegou a Brasília com milhares de pessoas, grande parte jovens como
ele. Gritavam: “Acorda, Brasil”. Nesse nível de abstração, é algo que deveria
valer para todos.
Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 01 / 2026

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