O Irã é um país distante, eu sei. No entanto não é tão
distante quando se sabe que milhares de pessoas são mortas lutando pela
liberdade.
Por coincidência, na semana anterior ao massacre eu tinha
dado um livro a minha filha: “Lendo Lolita em Teerã”. Sua autora, Azar Nafisi,
é uma de minhas referências na tentativa de entender o país. Professora de
inglês, autora de ensaios sobre Vladimir Nabokov, ela escreveu uma
autobiografia interessante, “Things I’ve been silent about” (Coisas sobre as
quais silenciei).
O livro revela o panorama intelectual do país antes da
Revolução Islâmica. Azar Nafisi tinha uma posição privilegiada, pois sua mãe
fora parlamentar e o pai, prefeito de Teerã. No livro, ela se preocupa muito
com o futuro das filhas criadas numa atmosfera familiar liberal, que poderiam
ter um futuro terrível na ascensão dos aiatolás. Interessante ver ilustrações,
ainda em 1980, com fotos de mulheres, inclusive a autora, protestando contra o
código de vestimentas muçulmano.
Isso me ajudou a entender o forte movimento de mulheres do
Irã que mais tarde, em 2022, sacudiu o país. Não só uma jovem foi morta pelo
regime na época, como esse tipo de assassinato prosseguiu nos dois anos
posteriores. As mulheres são a principal força de oposição ao regime
teocrático.
Mas as revoltas de agora trazem fatos novos. O primeiro é a
presença dos jovens, aparentemente a maioria dos mortos pela repressão. Seus
corpos eram levados de caminhão à morgue de Kahrizak, no sul de Teerã. São
dados obtidos pelo jornal Le Monde por meio de testemunhas dos massacres.
Assim como as mulheres são atingidas por um tipo de
repressão específica da visão de mundo dos aiatolás, os jovens agora se rebelam
contra a falta de perspectiva dramatizada pela crise econômica.
Há outro fator nas revoltas de agora, algo que ainda não era
sentido tanto no tempo em que o pai de Azar Nafisi foi prefeito de Teerã: a
crise hídrica. Não há água suficiente na cidade e noutros pontos do país. O
assunto é de tal gravidade que se chegou a pensar em transferir a capital para
outro ponto do país. Mas como fazer a mudança de 10 milhões de pessoas na
capital e mais de 4 milhões na área metropolitana? É um problema insuperável,
pois os mananciais já estão esgotados. A falta de água, a crise econômica e a
permanente opressão das mulheres, num país pressionado por Israel e pelos
Estados Unidos, são o cenário de uma crise permanente, apesar da crueldade do
sistema teocrático.
A resposta do governo brasileiro ao massacre foi tímida por
causa dos laços políticos e comerciais. Os setores progressistas, feministas
inclusive, não se comovem quando a opressão e crueldade acontecem no campo
adversário dos Estados Unidos. Essa é uma grande vulnerabilidade do campo de
esquerda. A sensibilidade seletiva nos leva a caminhos muito perigosos em
termos nacionais.
Considera-se a corrupção nas altas esferas como tema sem
importância histórica, com isso a credibilidade das instituições vai para o
vinagre, até no Supremo Tribunal Federal. Basta dar uma olhada nos comentários
nas redes sociais para ver como não só há indignação, como também desalento em
relação ao país, pródigo em escândalos. É o prelúdio de aventuras messiânicas.
Artigo publicado no jornal O Globo em 20 / 01 / 2026

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