Kleber Mendonça Filho recusou soluções fáceis e o mito
clássico do herói grego, o homem que faz coisas incomuns; Wagner Moura deu
conta do recado. Ganharam o Globo de Ouro
A universalidade de O Agente Secreto, dirigido por Kleber
Mendonça Filho, que acaba de ganhar o Globo de Ouro como melhor filme em língua
não-inglesa, não está na reconstituição explícita da repressão do regime
militar, mas na maneira como a ditadura se infiltrava na vida cotidiana, no
aparentemente insignificante, ou seja, naquilo que Milton Santos, nosso grande
geografo, chamou de “vida banal”. É justamente nesse território do dia a dia —
feito de gestos mínimos, silêncios, ruídos e deslocamentos — que o filme
constrói sua crítica política mais profunda.
A vida banal é o chão real da história. O
cotidiano é o espaço vivido onde as grandes estruturas — o Estado, o mercado, a
globalização, a violência institucional — se materializam no corpo, na
circulação, nas relações humanas. Ao escolher o Recife de 1977 como cenário, O
Agente Secreto transforma a cidade em laboratório dessa experiência: ruas,
postos de gasolina, cabines de projeção, apartamentos e corredores não são
meros cenários, mas dispositivos de poder, vigilância e memória. O regime
militar, à época, ditava a atmosfera do cotidiano.
No filme, a ditadura não se impõe apenas por prisões,
torturas ou discursos oficiais. Ela aparece na sua relação com a atmosfera do
espaço do cotidiano. Telefones podem estar grampeados, documentos desaparecem,
identidades que precisam ser ocultadas, histórias familiares que não podem ser
contadas. Trata-se de um regime que opera não apenas pela exceção espetacular,
porém, pela normalização do medo. É a penetração das normas, do controle e da
burocracia na vida comum.
Talvez seja essa a melhor explicação pela carreira
bem-sucedida do filme de Kleber Mendonça, o que não seria possível sem a
competência minimalista do diretor, a força de um elenco que cresce nas
pequenas coisas e nos pequenos gestos, e a atuação marcante de Wagner Moura,
que atua como um “spalla”, o primeiro violino, braço direito do maestro. A
escolha do Recife como locação do filme foi uma escolha estética decisiva: o
autoritarismo deixa de ser um evento distante e ganha a força do ordinário.
Viver sob a ditadura era aprender a conviver com a incompletude da informação,
com a dúvida permanente, com o apagamento lento das referências, um exercício
constante de adaptação e sobrevivência.
A força da atuação de Wagner Moura, vencedor do Globo de
Ouro de melhor ator dramático, tece essa narrativa. Seu personagem, Marcelo,
carrega a ditadura no corpo antes mesmo de compreendê-la racionalmente. O andar
hesitante, os silêncios prolongados, o olhar sempre atento traduzem aquilo que
Milton Santos chamava de corporeidade no espaço: o corpo como primeiro lugar
onde o poder se inscreve. Sim, há linhas de contato com a pressão mais brutal à
oposição. O figurino de Wagner Moura lembra muito uma das fotos de Fernando
Santa Cruz, pernambucano de Olinda, aluno da Faculdade de Direito da
Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), sequestrado em 1974,
cujo corpo não foi devolvido à família. A historiadora e museóloga Eneida
Quadros Queiroz, em um post nas redes sociais, traça um paralelo com seu pai,
Ayrton Albuquerque Queiroz, professor de economia da UFF, sequestrado e
torturado em 1976, também pernambucano, obrigado a deixar a deixar o Recife por
causa das perseguições políticas.
Vazios de memória
O Agente Secreto é um filme sobre memória, a falta dela e o
trauma geracional. “Eu acho que, se traumas podem ser passados por gerações,
valores também podem”, disse Wagner ao discursar na premiação. De fato, a
memória, no filme, não aparece como narrativa organizada, mas como fragmentos.
Fotografias, fitas, relatos truncados, rumores. Há sempre algo que falta — e
essa falta é política. A ditadura não apenas produziu traumas. Produziu também
não-memória, zonas de silêncio e esquecimento forçado. A fala de Wagner na
cerimônia do Globo de Ouro ilumina o sentido mais profundo do filme.
Na cerimônia, Wagner foi ao xis da questão: o trauma se
transmite no cotidiano, nos medos herdados, nos silêncios familiares, nas
histórias interrompidas. É nesse mesmo cotidiano que valores como
solidariedade, dignidade e resistência podem sobreviver e se renovar. A memória
é um espaço de resistência. Milton Santos via nas periferias e nos espaços
marginalizados não apenas o lugar da exclusão, mas, também, da invenção, com
brechas para outra forma de viver e pensar o mundo.
O Agente Secreto recusa soluções fáceis ou o mito clássico
do herói grego, o homem comum que faz coisas incomuns. Essa escolha é muito
difícil, mas aí está o grande êxito de Kleber Mendonça: a resistência é
discreta, quase invisível, porém, persiste. A simples memória do cotidiano dos
anos chumbo é um ato político. Sobreviver ao esquecimento é, em si, uma forma
de resistência. O som ambiente, os rituais urbanos, as pequenas interações,
Kleber Mendonça Filho aposta na potência ética do detalhe.
O Agente Secreto não é apenas um filme sobre a ditadura, mas
sobre o modo como sociedades lidam com seus vazios de memória. Ao tornar
visível esse processo no cotidiano, o filme faz uma leitura das estruturas de
poder. De certa forma, também é uma alegoria do que hoje se passa na sociedade
norte-americana.

Nenhum comentário:
Postar um comentário