Embora Marx tenha feito crítica forte à religião,
esquerda nunca foi muito consistente em condenar regimes teocráticos
Antiamericanismo é parte da explicação, mas também existe
um vínculo metafísico que passa pela crença em utopias
Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia
iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral,
econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um
esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.
Em 2009, passou pano
para a megafraude eleitoral que reconduziu Mahmoud Ahmadinejad à
Presidência. Na semana passada, o Irã anunciou
que recebeu um telefonema da chancelaria brasileira propondo "estreita
cooperação" para condenar a intervenção dos Estados
Unidos na Venezuela.
A esquerda deveria ser por princípio contra a religião? Em
1844, Karl
Marx escreveu: "O sofrimento religioso é, a um único e mesmo
tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A
religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e
a alma de um estado sem alma. Ela é o ópio do povo".
Marx é um autor que acertou e errou. Errou mais do que
acertou, mas penso que a crítica às religiões é um dos campos em que acertou.
Basta ver que um efeito que sempre aparece em países
que enriquecem é o esvaziamento das religiões.
Na prática, porém, a esquerda nunca foi muito consistente em
denunciar religiões como uma ilusão. Um bom exemplo é o pan-arabismo de Nasser,
no Egito,
e do Partido Baath, na Síria e
no Iraque.
Embora fossem, no papel, socialistas e seculares, nunca se afastaram muito do
islamismo. Mesmo na esquerda não marxista, temos o caso de Foucault, que se
deixou encantar pelo aiatolá Khomeini e por algum tempo apoiou a teocracia
iraniana.
O antiamericanismo é parte da explicação para a alta
tolerância da esquerda para com regimes como o iraniano, mas penso que há
também um vínculo mais metafísico. Marxistas e religiosos parecem partilhar a
crença num princípio teleológico redentista, tanto faz se o chamamos de Deus ou
de materialismo histórico, que levará o homem a um reino de bem-aventurança. É
mais fácil acreditar em utopias do que aceitar que vivemos num mundo sem
propósito.

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