quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O PILOTO SUMIU

Merval Pereira, O Globo

A única arma que um país como o Brasil, ou outros da América Latina, tem contra a invasão é o Direito Internacional

A captura de um navio com bandeira russa em meio ao Atlântico Norte, que tinha a protegê-lo submarinos, mas servia também ao Irã no transporte de petróleo desde a Venezuela, é a mais nova aventura de pirataria em consequência do sequestro do ex-ditador Nicolás Maduro no sábado passado. Parece filme, mas é a realidade. Até o fato de o navio antes se chamar Bella 1 e passar a se denominar Marinara no meio do caminho em alto-mar, tudo para fugir de sanções americanas. O atual impasse entre Rússia e Estados Unidos reflete bem os anos turbulentos que teremos pela frente até que o mundo tripartite proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a seus parceiros Vladimir Putin e Xi Jiping se acomode.

Não há força no mundo que possa se contrapor a esses três, e a China é a única superpotência que se interessa em manter vivos os organismos multilaterais. Estados Unidos e Rússia preferem a lei do mais forte. No Brasil, temos uma visão distorcida desse tabuleiro de xadrez e, em vez de uma visão de longo prazo, nos detemos no imediatismo da polarização ideológica rasa. A esquerda apoia a Rússia na invasão da Ucrânia porque ainda tem uma imagem de comunismo, ainda que Putin seja um autocrata de direita. A China tem um capitalismo de Estado — por isso defende o multilateralismo —, e o da Rússia é um capitalismo de amigos. Os Estados Unidos, sob Trump, transformaram-se num capitalismo de negócios, um capitalismo selvagem, que não leva em conta a democracia como ponto fundamental de sua liderança internacional.

O multilateralismo também não interessa a Trump, pois organismos internacionais como a ONU são obstáculos a seus desejos expansionistas. Em termos políticos, a Rússia é apoiada pela esquerda nacional porque é um opositor mais imediato dos Estados Unidos. Se já tivemos quem dissesse “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, temos agora quem ache que “quem é contra os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Uma definição rasa do ponto de vista ideológico. Ficar a favor da invasão da Venezuela é ser contra o governo Maduro de esquerda, então. Sendo Trump a nova liderança internacional da direita, o que ele faz está certo. Não importa nessa reação instintiva que avalizar a invasão do mais forte é se colocar à disposição do invasor.

A única arma que um país como o Brasil, ou outros da América Latina, tem contra a invasão é o Direito Internacional. Porque, sem essa regulação, Trump ou outros autocratas poderosos invadem o país que quiserem. O interesse nacional do invasor na Amazônia é mais determinante que o direito brasileiro sobre o nosso território. Não é possível viver num mundo desses neste momento da História. Já tivemos a Armada Inglesa mandando nos mares internacionais, já tivemos piratas que até hoje rendem bons filmes de aventuras. Quando se falava sobre os piratas modernos, no Golfo da Guiné, na África Ocidental ou na Somália, havia um misto de estupor e medo nessas histórias. Estamos regredindo.

O mesmo espírito de regressão constata-se no imbróglio do Banco Master, a mesma confusão ideológica. Ontem o ministro do TCU Jhonatan de Jesus esboçou o primeiro recuo quanto à intenção de intervir na liquidação do Banco Master, abandonou a ideia de fazer uma fiscalização no Banco Central e garantiu que não pedirá o fim da liquidação do Master. Ainda bem, seria, como disse o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, uma “pizza do tamanho do Maracanã”. Bancos muito maiores e mais importantes que o Master já quebraram — Nacional, Bamerindus, Econômico —, e nunca houve nenhuma movimentação nesse sentido. Agora o Master, que se aproveitou de brechas no sistema para fraudar seus clientes e ganhar dinheiro, virou vítima do sistema capitalista para a esquerda, que transformou o ministro do STF Alexandre de Moraes em herói que não pode ser tocado, assim como a direita trata o “mito” Bolsonaro.

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