Impossível esquecê-lo; não há dia em que não se queixe de
alguma coisa
Ler e comentar livros para diminuir a pena, só se for
oralmente, para que ninguém leia e comente por ele
Não, não é você que está dizendo. Sou eu mesmo. Sei muito
bem que prometi nunca mais escrever sobre Bolsonaro depois
que ele fosse preso. Mas, enquanto não se esgotarem as possibilidades de
recursos e sua sentença não passar em julgado, Bolsonaro não estará
tecnicamente preso. Neste momento, cumpre apenas prisão preventiva numa suíte
de 12 metros quadrados na Polícia Federal de Brasília —poderia estar fazendo
isso em casa se não tivesse tentado arrancar a tornozeleira e fugir para Buenos
Aires, onde seu colega Milei garantiu-lhe asilo no armário de vassouras da Casa
Rosada. Portanto, mesmo a contragosto, ainda estou sujeito a conspurcar esse
espaço com seu nome.
Além disso, Bolsonaro é do tipo que Nelson
Rodrigues definia como "aquele homem fatal" —o personagem que insiste
em reaparecer mesmo depois que o autor o expulsou da trama, apagou suas falas e
o substituiu por outro. No caso de Bolsonaro, quando se pensa que teremos o
prazer de passar alguns dias cuidando de nossa vida, sem saber dele, somos
informados de que está com soluços,
sofrendo de azia, atropelando os móveis, queixando-se do ar-condicionado,
insatisfeito com a manicure e, apesar de nada maricas e de seu histórico de
atleta, chorando pelos cantos.
Bolsonaro agora está pedindo para abater sua pena de 27 anos
e três meses de prisão com a leitura
de livros. É de seu direito: cada livro lido pode resultar na remição de
quatro dias da sentença, desde que ele produza um comentário escrito sobre a
obra e este seja analisado por uma comissão. O limite é de 12 livros por ano,
razoável para quem nunca leu nem isso na vida. O problema é o comentário
escrito.
Sim —porque Bolsonaro tem quem leia os livros por ele e lhe
repasse clandestinamente os textos. Donde sugiro que, além da apresentação
destes, ele seja submetido a arguições —a um severo exame oral sobre cada
livro, por uma bancada de scholars cascudos especialistas em Marx, Foucault,
Bakhtin etc.
Só então Bolsonaro saberá o que é pagar por cada um de seus
crimes.

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