Ele teve dias de general latino-americano
Donald Trump conseguiu o imaginável (sequestrou Nicolás
Maduro) e o inimaginável (a vice chavista Delcy Rodríguez assumiu a Presidência
da “República Bolivariana”, prometendo priorizar “uma relação respeitosa e
equilibrada com os Estados Unidos”). Vice virando casaca não é novidade, mas a
calma bolivariana surpreendeu. Num de seus primeiros atos, Delcy expulsou dois
diplomatas franceses depois que o presidente Emmanuel Macron expressou sua
preferência pela oposicionista María Corina Machado, que acabou de ganhar o
Prêmio Nobel da Paz.
Na esteira da captura de Maduro, Trump
ameaçou o presidente colombiano Gustavo Petro, voltou a reivindicar a
Groenlândia e soltou uma frase críptica: Cuba não vale uma invasão porque seu
regime comunista está pronto para cair. Há 67 anos presidentes americanos acham
que o governo cubano está prestes a cair. Fidel morreu, e seu irmão Raúl
completou 94 anos.
A Venezuela tem petróleo, e a Colômbia tem um presidente de
esquerda, mas o que Trump busca é Cuba. Derrubar o regime dos irmãos Castro é
coisa que vários presidentes americanos perseguiram. Um regime comunista a 145
quilômetros da Flórida justifica malquerenças, mas, para Trump, um empresário
do setor imobiliário, lá está um tesouro, maior que todos os butins dos piratas
a vicejar no Caribe em séculos passados.
Cuba Libre hospeda um patrimônio imobiliário estimado em
centenas de bilhões de dólares. Livre do castrismo, empresários americanos e
cubanos teriam a porta aberta para operações de ganha-ganha. Ganhariam as
famílias que perderam propriedades ao ser indenizadas, ganhariam as famílias
que vivem em propriedades confiscadas, indo para imóveis com escritura passada
em cartório. Ganhariam os empresários interessados em fazer negócios
imobiliários na ilha. Finalmente, ganhariam os americanos interessados em comprar
uma casa ensolarada a uma hora e meia de voo.
Trump está de olho em Cuba pelo prestígio político que o
triunfo lhe daria e pelos negócios que viriam junto. Quando diz que o regime
está pronto “para cair”, certamente baseia-se em informações de seus serviços
secretos. Nas últimas semanas, deu diversas pistas mostrando que armava alguma
contra Maduro. Deu no que deu.
Um projeto cubano seria também do agrado de Marco Rubio, seu
secretário de Estado, um político da Flórida, filho de cubanos que deixaram a
ilha. Houve tempo em que ele dizia que seus pais fugiram do castrismo. Era
mentira, eles deixaram Cuba durante o governo do sargento Fulgencio Batista,
deposto por Fidel em 1959.
Cuba é um tema tóxico para os presidentes americanos. No dia
22 de novembro de 1963, o chefe das operações especiais da Central Intelligence
Agency estava reunido em Paris com um cubano que mataria Fidel. A conversa foi
interrompida por uma notícia vinda de Dallas. John Kennedy foi substituído pelo
vice Lyndon Johnson, que morreu em 1973, convencido de que havia o dedo cubano
no tiro de Lee Oswald.

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