Com o Washington Post morrendo, a democracia americana e
o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais
Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote
oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre
na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e
impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro
Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano
Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de
governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável
matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem
também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades
de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para
a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a
preservação da democracia.
Naquele início de 2017, o mundo vivia o
choque de Donald Trump ter
sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já
bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington
Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom
jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como
mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a
ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.
Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão
pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado,
processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo.
Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026,
seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na
semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post,
decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram
limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de
Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas
sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes
mundo afora, dizimados por e-mail.
Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado
por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria
jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante
os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência
Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram
acordos de rescisão.
Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou
o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando
suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala
Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a
decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e
livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros
75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o
desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar
mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.
— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será
em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado
Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios
Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às
invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente
fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.
Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que
deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de
redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o
primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se
orgulhar até hoje. Não mais.
— O caso atual deveria ser estudado como a destruição
autoinfligida de uma marca — diz Baron.
Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da
democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela
enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar
num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site
oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do
ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a
ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista
a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na
escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a
sustenta encolhem um pouco mais.

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