Cordão sanitário funcionou e portugueses rejeitaram
ultradireita na Presidência
Radicais têm ascensão meteórica quando eleitores
descobrem que não estão sós
Por dois terços dos votos, os portugueses
elegeram o socialista moderado António
José Seguro para a Presidência do país, dando um sonoro
"não" ao ultradireitista André
Ventura, do Chega. Funcionou aqui o cordão sanitário. As principais forças
políticas do país, tanto à esquerda como à direita, se uniram no segundo turno
para impedir que um candidato da direita radical vencesse a disputa. Em Portugal, quem
governa é o premiê, mas o presidente tem poderes relevantes, como o de
dissolver o Parlamento e vetar leis.
Meu coração exulta sempre que o cordão
sanitário evita que radicais conquistem o poder. A democracia é boa não por
favorecer a eleição de líderes sábios, mas por automatizar o afastamento de
governantes que perdem eleições ou
nem deixar que figuras mais problemáticas se aproximem do poder. O otimismo,
porém, só vai até certo ponto. O Chega
passou de um deputado no pleito de 2019 a segunda força política de
Portugal, com 23% dos votos nas legislativas de 2025.
E não é só em Portugal. Com variações, o cenário se repete
na França, na Alemanha, na Espanha. Na Itália, um partido de raízes fascistas
fez a premiê. A melhor explicação que já encontrei para o fenômeno é a dada
pelo cientista político português Vicente
Valentim. Num resumo grosseiro, eleitores sempre tiveram ideias de direita,
às vezes bem pesadas, mas, por sentir que existia reprovação social a essa
ideologia, evitavam expressá-las em público ou nas urnas. Os diques, porém, só
funcionam até certo ponto.
Especialmente depois do advento da internet, que permite até
à diminuta minoria dos terraplanistas encontrar-se, esses eleitores
ultradireitistas descobrem que não estão sós e deixam de falsificar suas reais
preferências. Daí as ascensões explosivas das siglas radicais, que, no espaço
de dois ou três pleitos, vão da insignificância a porção significativa dos
Parlamentos nacionais. Esses partidos agora pautam o debate e ficam à espreita.
Se circunstâncias adversas se materializarem, poderão eventualmente governar.

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