Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma
pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste
ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.
Para começar, uma das instituições mais criticadas, o
Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está
aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento,
não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da
continuidade de deputados e senadores.
Na verdade, é possível que o Senado se posicione mais à
direita ainda porque há uma estratégia de aumentar o número de senadores para
solucionar outra crise institucional: a do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nesse caso, é uma tentativa de punição de alguns ministros
pelo caminho do impeachment. Há outras propostas para tratar o caso do Supremo.
Uma delas foi apresentada pelo jurista Walter Maierovitch, que propõe emenda
constitucional para reformular a Corte, com mandatos de nove anos. O que fazer
com os ministros que só se aposentariam com 75 anos? Seriam colocados em
disponibilidade. Iriam para o banco, para usar uma linguagem de futebol. Emenda
constitucional dessa envergadura só seria apresentada por um presidente que
fosse muito forte e que estivesse disposto a comprar essa reforma.
Acontece, portanto, que tanto o Congresso quanto o STF são
de difícil reforma e não podemos contar com isso para 2027. Resta indagar se as
eleições conseguem equacionar o problema da segurança pública no Brasil. Ele
depende da conjugação das forças federais, estaduais e municipais. Isso pode
ser conseguido por meio de emenda constitucional. E deverá ocorrer.
O problema, no entanto, é mais profundo. Como vencer as
desconfianças entre as polícias locais e a Polícia Federal? Será preciso um
intenso trabalho de articulação. Um trabalho desse tipo anda muito melhor
quando orientado pelo presidente.
Lula é o favorito. Terá 80 anos ao vencer. Muitos questionam
sua saúde para exercer um cargo desse tipo. Também já tive 80 anos e acho que
ele consegue com os recursos que tem, superar tranquilamente esse obstáculo.
Nessa análise, numa mesa de bar, simplesmente ignorei a idade de Lula. Minha
pergunta não é se Lula terá saúde, mas se terá paciência.
Nesse terceiro mandato, já demonstrou uma ligeira fadiga com
as articulações políticas, principalmente com deputados e senadores. A
conjuntura internacional o empurrou para uma série de viagens pelo mundo. É
necessária, porque a abertura de novos mercados, que era importante em si,
tornou-se mais decisiva ainda com os rompantes de Trump.
Num mundo efervescente, as viagens devem continuar sendo um
tópico importante na agenda. Muda-se de clima, vê-se um novo país, mergulha-se
em nova cultura. Mas com o tempo, essas experiências tornam-se previsíveis, não
tanto quanto uma conversa com deputados, mas com menos encanto do que agora.
Paradoxalmente, é possível que se tenha um presidente com
menos paciência, num país mais complexo e nervoso, portanto mais impaciente.
Chegará um tempo em que o presidente terá de tomar grandes decisões num país em
crise. Alguns dos seus aliados podem avaliar a crise como estrutural e
aconselhá-lo a dar passos para a frente, rumo ao socialismo. De qualquer forma,
serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos.
Nesse momento da análise, o amigo lembrou que as eleições
ainda nem começaram, que haverá alguns debates importantes, alianças
surpreendentes, sem contar com o fato de que a popularidade de Trump está em
declínio. Sim, esses fatores são importantes e pode ser que com outras
variáveis mais confortáveis, Congresso e STF consigam celebrar um imenso acordo
que garanta sua sobrevivência sem sobressaltos. E o presidente eleito tenha
apenas de tocar o barco, aparando uma ou outra aresta, empurrando com a barriga
as questões insolúveis até agora.
De qualquer forma, será necessária muita paciência. Um
cenário de monotonia não costuma ser frequente no Brasil.
Enquanto nada disso acontece, não há outro caminho, exceto
lutar por um Congresso melhor, enfatizando a importância de uma boa escolha. E
também lutar pela transparência em escândalos como o do Banco Master. É
importante saber quem se envolveu, políticos e juízes. A verdade é que tudo o
que sabemos sobre Dias Toffoli nos deixa mais confusos ainda: como é possível
que se faça tudo que ele fez e não aconteça nada? Aí voltamos à crise do
próprio STF, que se tornou uma Corte insustentável.
Vamos votar num presidente sabendo que não terá dinheiro
para realizar seu programa. Com todos os senões, vamos adiante. É o que nos
resta.
Artigo publicado no jornal Estadão em 27 / 02 / 2026

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