Por decisões políticas ou judiciais, algum limite está
sendo imposto ao uso do porrete como política de Estado que Trump tentou
consagrar
O mundo está perdendo o medo de Trump? Enfim, parece que até
a Europa Ocidental agora entende os danos que um governo norteamericano
chefiado por uma pessoa descontrolada e insensível às relações internacionais
pode provocar no cenário mundial. Alguns dos principais dirigentes europeus
reunidos na Conferência de Segurança de Munique reconheceram que a ordem
mundial, construída logo depois do fim da 2.ª Guerra Mundial e aperfeiçoada nas
últimas décadas – e que assegurou um mínimo de paz para o desenvolvimento da
humanidade –, acabou. “A ordem mundial baseada em direitos e regras está sendo
destruída”, disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o encontro. É um
reconhecimento tardio dos estragos que Donald J. Trump está espalhando pelo
mundo.
Esta reunião é realizada desde 1963, com a
participação dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em
tempos normais, tem sido uma confraternização dos países que, com os Estados
Unidos, formam a aliança militar criada para se contrapor à ameaça do Leste
Europeu (até o início da década de 1990, os países dessa região, liderados pela
então União Soviética, formavam o Pacto de Varsóvia) e de outros da Europa
Central que se integraram ao grupo.
O governo Trump mudou esse clima afável no ano passado. Ao
falar em nome do governo que se iniciara pouco antes, o vice-presidente dos
Estados Unidos, J. D. Vance, fez duras críticas aos países europeus, sobretudo
às suas políticas internas, que acusou de serem tolerantes com imigrantes
indesejados e não protegerem liberdades individuais, e a sua baixa capacidade
de autodefesa, acusando-os de não estarem preparados para enfrentar as ameaças
globais sem a ajuda dos Estados Unidos. É provável que Vance tivesse alguma
razão na questão militar, mas seu tom foi obviamente exagerado. Mas Vance é
mais exagerado que Trump.
Neste ano, o representante norte-americano, o secretário de
Estado Marco Rubio, foi menos agressivo, e até falou que os destinos dos
Estados Unidos e da Europa Ocidental estarão “sempre entrelaçados”. Duros foram
alguns dirigentes europeus. Merz, por exemplo, fez seu discurso em inglês, para
deixar claro a quem dirigia preferencialmente suas palavras sobre a destruição
da ordem mundial conhecida até agora.
Outro que falou em inglês, com o mesmo objetivo, foi o
presidente francês, Emmanuel Macron, talvez dando uma resposta muito atrasada
para as críticas feitas por Vance no ano passado. “A Europa tem sido
vilipendiada como um lugar de imigração descontrolada e repressão à liberdade
de expressão. Mas todos deveriam seguir o nosso exemplo, em vez de nos criticar
ou de tentar nos dividir”, disse Macron.
Na semana passada, em outro episódio de resistência
europeia, a primeira reunião do Conselho da Paz criado unilateralmente por
Trump foi marcado não pelas presenças, mas pelas ausências. Os principais
aliados dos Estados Unidos recusaram-se a participar da encenação. A presidente
da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, rejeitou o convite. Entre outros
dirigentes que não foram a Washington estão os do Reino Unido, da Alemanha e da
França.
Trump havia retirado o convite ao primeiro-ministro
canadense Mark Carney, que fez um discurso muito crítico à política externa dos
Estados Unidos no Fórum Econômico Mundial, na localidade suíça de Davos.
Mas a pi or der r ot a de Trump foi no plano interno. A
decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, tomada na sexta-feira passada, de
considerar ilegais as tarifas impostas por Trump às importações originárias de
dezenas de países desmonta um dos principais programas do governo
norte-americano. O objetivo do presidente dos Estados
Unidos era, por meio de tarifas, impor ao mundo uma nova
ordem para o comércio mundial decidida exclusivamente na Casa Branca,
destruindo o que ainda restava de regras universais para as trocas
internacionais pacientemente construídas nas décadas que seguiram à criação do
Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), em 1947, até sua transformação na
Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995.
De acordo com a decisão da Suprema Corte, a fixação de
tarifas de importação é competência exclusiva do Congresso. Mas Trump não
desistiu. A Casa Branca informou que utilizará outros instrumentos legais para
sobretaxar as importações. Há, de fato, meios legais para isso, ainda que
algumas medidas sejam temporárias e outras, de aplicação mais difícil, pois
exigem investigações de práticas desleais de comércio. O caso terá
desdobramentos.
Mesmo assim, por decisões políticas ou judiciais, algum
limite está sendo imposto ao uso do porrete como política de Estado que Trump
tentou consagrar. Como disse o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil e
ex-subsecretário de Estado Thomas Shannon em entrevista ao Valor Econômico, a
abordagem do mundo que gera o caos, como Trump tem feito, é desconfortável até
para os norteamericanos. •

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