Na nossa geração da política disputada na internet, a
inveja encontrou um terreno fértil. Ideias, à essa altura, levam desvantagem, e
a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam.
Inveja é coisa feia. E esse pecado mortal — Santo Agostinho
dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que
outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo.
Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos
outros. Eu, de minha parte, nunca tive.
Na nossa geração da política disputada na internet, a inveja
encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o
invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, "likes" e,
naturalmente, o sucesso e o dinheiro que andam juntos. Ideias, à essa altura,
levam desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos
enriqueçam.
Não é que a inveja não estivesse na
política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a
inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um
episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava,
naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o
Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu
filho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do
sobrevivente entre os vários candidatos.
Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale
selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O
primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de
Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas
mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou
também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente
que ele, que fizera César deus para poder se dizer divi filius, não tenha
providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai
adotivo.
Os artistas eram cooptados como os maiores divulgadores das
belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as
centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que
ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotografia,
foram os retratos de seus heróis que desfilaram: Lênin, Stalin, Hitler,
Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Saddam Hussein e todos os que acreditam na
autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas
coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele
resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump
— John F. Kennedy Center for the Performing Arts.
Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a
achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a
altura, mas outros predicados são mais difíceis de enganar, de modo que o jeito
é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e
por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do
império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema
colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro
lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofalantes e
microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi
usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até
de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes
gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando
passaram a usar papamóvel.
O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar
dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa, outra arquitetônica. Nada de
novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que fizera o extraordinário Escorial,
fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los
Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na guerra civil, com o requinte
de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher
de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do
Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma
sala de baile tamanho família e, agora, quer fazer também o "Arc of
Trump" diante do Lincoln Memorial, do outro lado do Rio Potomac; o detalhe
é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por
inveja de Napoleão!
Há inveja para todos os gostos!
*José Sarney — ex-presidente da
República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

Nenhum comentário:
Postar um comentário