O atual presidente americano pode ser um inimigo temível,
sim, não por causa da sua intuição, mas por sua estupidez. A estupidez é
imprevisível
Donald Trump anuncia o completo esmagamento do Irã. Logo a
seguir surpreende-se com a resistência. Admite ter proposto um cessar-fogo. Diz
que foram os iranianos a iniciar as conversações. Reivindica a vitória total.
Na frase seguinte proclama, com a ingenuidade de um anjo recém-saído das mãos
de Deus, que ninguém poderia prever o encerramento do Estreito de Ormuz.
Escreve que o Irã tem 48 horas para reabrir a passagem, caso contrário,
aniquilará várias usinas de energia. Anuncia que suspende por cinco dias os
ataques às infraestruturas energéticas. Diz-se disposto a abandonar o cenário
de guerra. Os europeus que resolvam o problema. Irrita-se com o alheamento dos
europeus. Implora ajuda aos europeus. Grita que não precisa dos europeus.
Confessa que os israelenses o forçaram a iniciar o conflito. Volta, ainda na
mesma frase, a proclamar vitória. Diz que não se importa que os aiatolás se
mantenham no poder desde que lhe entreguem o petróleo. Noticia o levantamento
do embargo petrolífero ao inimigo mortal. Acrescenta que nunca os americanos
foram tão vitoriosos. É uma vitória a seguir à outra. Tantas vitórias já
cansam.
Analistas conservadores se esforçam por dar
um véu de coerência aos desencontrados discursos do presidente norte-americano.
Suam. Balbuciam. É um esforço formidável, inglório, como tentar dar
consistência a uma efêmera nuvem num esplendoroso céu de verão.
“O problema é que Trump partiu para a guerra sem um Plano
B”, reconhece um deles.
“Talvez não tivesse nem sequer um Plano A”, arrisca outro,
num fio de voz.
Um terceiro elogia a intuição de Donald Trump. O presidente
americano, segundo este especialista, e outros da mesma escola, seria uma
espécie de poeta da estratégia política e militar. Eu diria mais — um profeta!
O próprio Donald confessou ter tomado a decisão de atacar o Irã após escutar os
seus ossos. Não disse quais. Podemos imaginá-lo a dialogar, por exemplo, com a
tíbia direita. É mais fácil imaginá-lo debruçado sobre a tíbia do que a falar
com o estribo, desde logo porque Trump nem deve conhecer a palavra, quanto mais
o osso.
Acredito na intuição. Tenho para mim que a intuição é uma
manifestação sutil de inteligência. O pensamento se organizando, num súbito
clarão, antes da linguagem. Qualquer pedra tem mais intuição do que Donald
Trump.
O atual presidente americano pode ser um inimigo temível,
sim, não por causa da sua intuição, mas por causa da sua estupidez. A estupidez
é imprevisível.
Canalhas, tiranos, pessoas perversas, todos eles traçam
estratégias. Obedecem a estratégias. Podemos combatê-los. É muito mais difícil
enfrentar um homem tolo, sobretudo um homem tolo com grande poder, porque, como
acontece com as baratas americanas, nunca sabemos que rumo irá tomar.
Donald Trump é uma barata americana com uma bomba nuclear
atada às costas. Uma barata americana esvoaçando, a toda velocidade, numa sala
fechada.
Eu estou encolhido, imóvel, num canto da sala.
Medo. Muito medo.

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