INTRODUÇÃO
O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo
como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje
submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente,
que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio.
Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos
que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu
propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos
gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.
No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da
democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não
teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e
devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter
nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a
participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do
que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim
por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem
isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.
Somos protagonistas de uma grande
transição. Ela se estrutura sobre três eixos dominantes: (a) a vida nacional se
globalizou; (b) o capitalismo industrial se converteu em capitalismo
informacional; e (c) a modernidade se radicalizou e se tornou hipermodernidade.
Cada um desses eixos tem repercussões fortíssimas no dia-a-dia, na organização
social, nas formas da política, no Estado, na economia e na cultura, no corpo e
na alma das pessoas.
Nos diferentes capítulos do livro, pretendo explorar a
hipótese de que essa grande transição está se materializando mediante o avanço
de alguns processos perturbadores: a fragmentação, que problematiza a coesão e
o pacto social; a individualização, que exacerba o distanciamento entre os
indivíduos e os grupos de referência; a aceleração, que altera o ritmo
existencial; e a digitalização, que modifica o modo como interagimos uns com os
outros e nos relacionamos com a tecnologia.
O transcorrer desses processos assemelha-se a um vulcão que
entra em erupção e, ao fazê-lo, libera uma lava que corrói as defesas sociais e
existenciais. Vulcões, como se sabe, não liberam somente lava, mas também
fumaça, poeira, vapor e pedra, que descem enlouquecidamente por suas laterais.
O calor por eles produzido é insuportável. Emitem toneladas de gás e partículas
finas que permanecem suspensas na atmosfera durante anos, formando uma
neblina que não se vê a olho nu, mas que tem efeitos catastróficos. Empregá-los
como metáfora significa dizer que o mundo atual está sendo atacado por
múltiplos desastres.
Os processos em curso se desorganizam e se reorganizam,
fazendo com que a vida seja vivida como se estivesse em ebulição permanente.
Por estarem em plena eclosão, convivem com restos de épocas pretéritas e ainda
não deram origem a novas rotinas e instituições. Donde a sensação de
insegurança e incerteza prevalecer em cada um de nós. Donde as crises
sucessivas e as dificuldades governamentais, o declínio dos partidos políticos
e os problemas de realização da democracia.
Escrito entre maio de 2022 e maio de 2023, este não é um
livro acadêmico. Foi pensado para o grande público, leitores não especializados
e pessoas interessadas em compreender a vida atual. Nasceu carregando uma
inquietação e um desejo de diálogo e comunicação.
Nossa época é estranha. Todas as épocas talvez sejam assim:
quem vive nelas sempre tem a sensação do inusitado, de algo que não se
manifestou antes, de que seu tempo é diferente dos anteriores. Mas a nossa é
paradoxal demais. Encanta e assusta. Confunde, perturba, excita. Parece vazia
de esperança e otimismo, como se não conseguíssemos enxergar o quanto avançamos
e temêssemos o que nos aguarda à frente.
O estranhamento vem em pílulas. Um belo dia, percebemos que
há algo esquisito no mundo que nos cerca, algo que parece não encaixar. A
sensação surge no modo como consumimos, como processamos informações, como nos
relacionamos com a cultura, o entretenimento e a inovação. Nossos gadgets
(televisores, celulares, computadores, tablets, traquitanas eletrônicas)
envelhecem antes mesmo de serem utilizados. A linguagem muda, movida a memes e
neologismos. Os pais se surpreendem com o comportamento precoce dos filhos, com
a demora deles de amadurecer, com o jeito como tratam a escola, o estudo, o
emprego, o futuro. Formas aberrantes de violência e discriminação chegam-nos
ao conhecimento dia após dia.
São pílulas que se esparramam e nos angustiam.
Atravessamos dois anos de pandemia, mas hoje, na metade de
2023, não é certo que tenhamos absorvido, assimilado e compreendido o impacto
do coronavírus sobre nossas vidas e nosso mundo. Sabemos muito mais a respeito
de ataques virais, temos vacinas e medicamentos para combatê-los, mas
faltam-nos políticas sanitárias, coordenação e cooperação mundiais. Dentro de
cada país, as orientações seguem ritmo próprio. Na pandemia, houve de
tudo: solidariedade e negacionismo, cuidados e desleixo. Muitos governos e muitas
lideranças, por exemplo, usaram o vírus para açular seus cidadãos e lhes vender
falsas ilusões.
Vivemos em sociedades sempre mais abertas, individualizadas,
repletas de opções. Os lugares já não estão mais demarcados. Há muita
mobilidade. As forças subterrâneas e as instituições que organizavam os espaços
sociais, as posições, os modos de pensar e se comportar, perderam vivacidade,
tornaram-se opacas, sem poder de coesão ou de imposição.
Há margens maiores de liberdade e autonomia. Podemos
escolher como viver a vida. Nem sequer percebemos as orientações que, em
silêncio, insidiosamente, valendo-se de algoritmos e estratégias de marketing,
modulam e padronizam os comportamentos coletivos, onde quer que estejamos.
Vivemos em sociedades de massas e de indivíduos, autônomos mas
homogeneizados, em boa medida controlados. Não há exagero na hipótese de
Shoshana Zuboff de que estamos imersos em uma “era do capitalismo de
vigilância”, na qual redes sociais, empresas e aplicativos têm mais poder do
que muitos Estados nacionais. É uma era que problematiza a democracia e exige
sua defesa permanente.
Mistura-se a isso a enxurrada de notícias falsas que
recebemos. Agindo simultaneamente com as informações que temos de processar
diariamente, querendo ou não, a desinformação forma uma massa tóxica, que nos
perturba e nos rouba sabedoria. A informação desvirtuada e o excesso de
informações ajudam a que se forme uma cortina de fumaça que contamina e cega.
E o que dizer da multiplicação de lideranças autoritárias,
cujas atitudes e estratégias minam os valores democráticos e manipulam parcelas
importantes da população? Há governantes que governam contra seu povo, outros
que combatem o sistema eleitoral de seu próprio país, depois de terem dele se
beneficiado. Chegam ao poder embalados por mentiras e falsas expectativas,
vestem-se de nacional-populistas e se dedicam a introduzir medidas reacionárias
no plano da moral, dos costumes e das políticas sociais. Agridem a imprensa,
rasgam Constituições, esvaziam instituições concebidas para proteger a
democracia e as liberdades. Dividem a sociedade e constroem muros para separar
“bons” e “maus”. Tudo é ressignificado e deformado por eles.
Nossa época não está sendo caracterizada por uma onda de
bons políticos, daqueles que reúnem carisma, postura de estadista, convicções,
firmeza, elegância, capacidade analítica, conteúdo programático e boa
comunicação. Há muitos apelos populistas, à esquerda e à direita, pouca atenção
para as transformações em curso. Juntamente com as elites (políticas,
intelectuais, empresariais, artísticas), os representantes do povo parecem
confusos, concentrados em seus interesses particulares e na captura de votos.
Nem sequer oferecem sonhos e fantasias razoáveis. Ficaram tomados pelo
pragmatismo e pelo realismo duro.
Vivemos em redes. A cada dia, mais pessoas caem nelas,
voluntariamente, cedendo a seus encantos e facilidades. Redes são prisões ou
estradas para a liberdade? Isolam-nos em bolhas e nos roubam do contato com o
mundo exterior, alienando-nos? Ou são estratégias de sobrevivência, lugares de
fuga de uma realidade sempre mais difícil de ser suportada e compreendida?
O que há de pernicioso, alienante e dispersivo nas redes
pode ser, sem muita dificuldade, contraposto ao que elas trazem de retomada de
contatos e de manutenção de uma conversação frugal que também faz parte da
vida. Estar em redes é usufruir de uma fonte de contatos e oportunidades, é
adquirir uma visibilidade que, bem dimensionada, nos retira da privacidade
excessiva e da individualidade fechada. É poder trabalhar com maior agilidade e
viver como “nômades digitais”, para quem o lugar e a localização não são
indispensáveis. É poder interagir e dialogar com públicos amplos. É fazer
política de um modo novo.
Em nossa época, há mais liberdade e mais igualdade, mas
também enfado, repetição, cansaço. Podemos compreender as razões disso. Cada
indivíduo tem de traçar seus próprios caminhos existenciais, construir as
“narrativas” com que se insere no tecido social e nos ambientes de convivência.
As pessoas fazem isso no silêncio de seus quartos, nas interações com os outros
e sobretudo nas redes sociais, que exigem posicionamentos contínuos, embaralham
as cartas do pensamento e subvertem valores e verdades estabelecidas. O
ciberespaço superpõe-se às atividades presenciais, físicas, que perdem
visibilidade e ficam menos importantes. A frenética interação digital ajuda a
deixar as pessoas sem suportes existenciais seguros.
Nossas sociedades ficaram inapelavelmente mundializadas:
interagem com um mundo que está estruturado, mas não regulado ou controlado
politicamente. Já não temos uma guerra fria entre Estados Unidos e União
Soviética, como houve até 1991. Aquele sistema internacional conseguia gerar,
por vias tortas, algum equilíbrio e certa estabilidade. O mundo atual, repleto
de crises, conflitos e tensões, gira em falso, desgovernado. Parte dos
problemas decorre do próprio capitalismo e dos regimes econômicos dominados pela
financeirização. Outra parte deriva da irrupção política de forças de
extrema-direita, regra geral populistas, que se dedicam a questionar a
democracia liberal e a mobilizar as populações contra o “Ocidente”. No Leste
Europeu, essa configuração de alguma maneira gira em torno da Rússia de Putin,
desejosa de recuperar sua posição imperial. Outros conflitos vêm da ascensão da
China como potência global. Só que, agora, as disputas entre as potências não
têm mais uma roupagem ideológica (tipo capitalismo vs. socialismo),
organizam-se no terreno da supremacia econômica, comercial, tecnológica, além
de se distribuírem no eixo democracia-autocracia. O que também abala a paz e a
harmonia entre as nações, além de servir de alimento para exacerbações
nacionalistas e étnicas.
O mundo globalizado arrasta indivíduos, grupos, Estados e
empresas para um mesmo circuito de conexão. Cria uma sensação de pertencimento
cosmopolita, que, no entanto, permanece em um plano mais abstrato do que
concreto. Todos sabem que integram um só mundo, mas cada um cuida mais de seus
próprios interesses do que de um generoso interesse comum.
A hiperconectividade abre mil portas em termos de
comunicação e conhecimentos, mas cria, simultaneamente, fantasias
igualitaristas, como se estivéssemos todos inseridos do mesmo modo nas searas
digitais que frequentamos. A liberdade não é igual para todos, assim como não
há igualdade em termos de renda, de possibilidades de escolha e de
oportunidades. As épocas humanas sempre foram ricas em desigualdades. Não é
diferente com a nossa. Hoje, elas são exuberantes, acachapantes. Atingem os
mais variados aspectos da existência humana: a qualidade e a expectativa de
vida, a posse de bens e propriedades, a higiene e a saúde, os efeitos
climáticos e ambientais, a educação, a paridade de gêneros, a educação, os
direitos, a justiça, a renda, a cultura. Não há, a rigor, nada que seja
distribuído de modo justo.
A percepção disso pesa como uma rocha sobre os ombros de
cada um de nós, independentemente do nível de consciência crítica que tenhamos
da realidade. Tira-nos o fôlego, rouba-nos a esperança, sem que consigamos nos
dar conta. Sentimo-nos incomodados pelas atrocidades diárias, pela miséria,
pela violência, pela fome, pelo desemprego, pelos deslocamentos populacionais,
por guerras insensatas, pelo descaso público, pela falta de civismo e
generosidade, pela truculência. Transitamos pela vida tentando não tropeçar
nessas armadilhas, que incomodam, deprimem, geram indiferença. Em termos morais
e emocionais, o mal-estar é corrosivo.
Hoje temos de responder a perguntas incômodas. Antes de
tudo, desejamos continuar a viver de modo tecnológico, digital, em redes?
Prosseguiremos aceitando o domínio do mercado? Continuaremos a assistir sem
reação à destruição do planeta, ao aquecimento global, à crise climática? Como
estamos assimilando as postulações identitárias e as lutas por reconhecimento?
Que pensar diante do avanço das máquinas inteligentes, da Inteligência
Artificial? Temos algum poder de escolha? Temos à disposição um modelo alternativo
de “boa vida” e “boa sociedade”? A democracia institucionalizada está nos
ajudando? Estamos cooperando o suficiente?
Podemos reunir essas perguntas aos problemas dramáticos do
mundo em que vivemos: a guerra russa na Ucrânia, o desmatamento da Amazônia, o
desrespeito desumano pelos povos originários, a violência generalizada, a crise
econômica recorrente, o desemprego, o desentendimento, as polarizações que
abalam a democracia, a fome que assola muitas regiões, as desigualdades
que não cessam de se reproduzir, as inúmeras manifestações de ódio e
soberanismo. A esperança fica impotente diante de tanto descalabro. O conhecimento
também.
Os temas e problemas desse modo angustiante de vida compõem
um elenco que não tem obtido respostas cabais, categóricas, que expliquem a
realidade social como um todo articulado, cujas partes e segmentos dialogam
entre si, como um complexo de complexos, sistemas e subsistemas entrelaçados.
Temos de compreender as razões dessa lacuna. Épocas de transformação rápida, de
transições sistêmicas, de metamorfoses, não são épocas de fácil tradução
teórica. As ciências sociais também se postam com espanto diante dessa
realidade mutante, que escapa de modelos, esquemas interpretativos e conceitos.
O caráter fluido e fragmentado da vida chega mesmo a vetar construções teóricas
abrangentes, empurrando os cientistas sociais para a especialização e a
compartimentação.
A dificuldade de compreender o presente embaça o futuro e
força o olhar para trás, como um esforço para, quem sabe, deslindar épocas em
que a maior simplicidade estrutural fornecia bases mais sólidas de segurança. O
medo e a perda do futuro latejam em cada um de nós, ferindo particularmente os
jovens, que têm uma vida pela frente mas não dispõem de mapas confiáveis para
delinear o que virá para além do agora imediato. Agarram-se ao presente que
lhes dá alguma orientação e com isso deixam de construir utopias realistas que
poderiam movê-los mais além. Protestam, reclamam, esperneiam, agitam as
agendas, produzem ruídos críticos e novos direitos: de algum modo são atores
relevantes, que irrompem no palco sem um roteiro claramente concebido. Rejeitam
a política tradicional, politizam-se pelas redes, ocupam praças e ruas,
mas não conseguem passar para o campo político institucionalizado.
Na outra ponta, a valorização ingênua de épocas pretéritas,
tidas como mais palpáveis e “ordenadas”, faz com que integrantes das velhas
gerações sejam capturados por ideologias e narrativas reacionárias, quase
sempre impulsionadas pela desinformação. A operação também seduz os
ressentidos, os que se julgam castigados pelas injustiças sistêmicas ou por
escolhas governamentais. Há um gatilho de raiva disparando toxinas sobre os
cidadãos.
As aceleradas mudanças tecnológicas, sociais, culturais e
ecológicas dificultam a compreensão da realidade complexa, pondo em xeque as
estratégias educacionais até então seguidas. Os jovens passam a ficar expostos
a uma espécie de “desorientação” geral, com pouca privacidade, quase nada de
proteção institucional e muita ilusão comunicacional.
Nossa época está repleta de recursos para alavancar um novo
tipo de Iluminismo – um pós-Iluminismo, que não mais celebrará o império
unilateral da racionalidade e do progresso. O conhecimento acumulado é
fabuloso. Já não é mais hegemônica a visão que pregava a submissão unilateral
da natureza aos desígnios humanos. Hoje, há mais compreensão do valor
intrínseco da diversidade cultural, mais respeito pelas culturas originárias. A
sustentabilidade é uma ideia que se generaliza, assim como a preocupação com um
trato não destrutivo da natureza. A tecnologia da informação, que avança
aceleradamente, mostra sua utilidade estratégica em diversos setores, da
economia à gestão pública, do ensino à democracia.
A democracia permanece como valor e aspiração, mas não goza
de prestígio inconteste quando passa para a vida política prática, aquela na
qual atuam os governos, os partidos políticos, os Estados-nacionais, as
burocracias públicas, as grandes empresas. A situação é tão complicada que é
como se a democracia atuasse de algum modo contra ela mesma: eleições se
sucedem, mas os governos governam pouco e mal, muitas decisões são tomadas
longe do olhar público, as oligarquias se reproduzem, sacrificando os destinos
coletivos. Há no ar mais frustração do que confiança.
Vivemos pressionados, com futuros incertos. A tranquilidade
e a serenidade não são companheiros da viagem que somos obrigados a fazer dia
após dia. Essa pressão despenca sobre cada um de nós em função de múltiplas
exigências: a obtenção de sucesso, a busca de reconhecimento dos próprios
direitos e da própria dignidade, a conquista de renda e emprego, a
produtividade, a competição, a felicidade, a eliminação das desigualdades.
Minha convicção é que a política é o principal recurso que
possuímos para construir saídas coletivas. Ela, hoje, está igualmente sufocada
pelas transformações aceleradas que reviram a vida. Faltam-lhe bases sólidas de
sustentação, que lhe deem ao mesmo tempo sinalizações e referências.
Faltam-lhe, também e sobretudo, programas de ação, atores organizados e
lideranças. O mundo está sem estadistas e dentro de cada país o que prevalece
são líderes de baixa consistência, governos erráticos e pouco produtivos.
Uma mudança de rota é nossa boia de salvação. É onde estamos
hoje: mudar ou sofrer, quem sabe perecer. Uma “política de civilização”, que
também seja uma política de civilidade, é o caminho sugerido por Edgar Morin
para resistirmos às catástrofes anunciadas, a corrosão da democracia, a
violência, as epidemias virais, as guerras, a desigualdade, a fome, a
emergência climática, o desemprego, as manifestações de ódio, as polarizações
improdutivas. O descalabro é tão grande que parece faltar frestas por onde escapar.
Temos de aprender a “não ignorar as nossas ignorâncias” e a não perder a
esperança e a paixão pela diversidade.
Há processos de longa duração em curso, que pedem cautela
analítica. Vivemos um tempo de metamorfoses e assimilações. Estamos sendo
forçados a incorporar novos processos aos nossos cálculos existenciais.
Precisamos recuperar sabedorias básicas, fundamentos da convivência, da
educação, da saúde, da higiene. Fazer com que o diálogo volte a prevalecer
sobre a defesa categórica de posições, a generosidade afaste o ódio, a
paciência vença a raiva.
Estamos encharcados de informações e melhoramos nosso
entendimento de inúmeras coisas que antes nos intimidavam e assustavam.
Distanciamo-nos da aceitação passiva dos problemas que nos desafiavam.
Aperfeiçoamos nossa compreensão de que o passado ficou no passado, como uma
concha que nos explica de onde viemos, que modela parte importante da vida mas
que não determina tudo e está sendo literalmente varrido pelo processo de
transformação em curso. Aquilo que era sólido se dissolveu no ar. Intuímos que
nada mais será como antes, tamanha é a percepção de que as mudanças, as
descobertas, as novidades científicas e tecnológicas, os novos valores se
impõem a cada um de nós, sem apelação. É uma situação que assusta e desorienta,
turbinada pelo volume avassalador de informações. O fato é que não sabemos como
desvendar o futuro, que se aproxima velozmente, impulsionado pela aceleração
geral, pela rápida inovação tecnológica e científica.
Os capítulos deste livro pretendem fornecer uma visão
organizada de alguns dos principais temas que estão em discussão. A expectativa
é que se possa desenhar uma agenda reflexiva.
O drama que se descortina no palco não é animador. Mas a
história é sempre um espocar de contradições, avanço e retrocesso, paralisia e
transformação. Não estamos partindo do zero. Quando olhamos o conjunto da obra,
temos muito que comemorar. Em períodos de transições aceleradas, como são os
nossos, o perigo nos ronda o tempo todo, oportunidades se abrem e se fecham.
Estamos aprendendo a viver sob pressão e com futuros incertos. Novas
perspectivas e novos abismos se anunciam sem que tenhamos pontes para atravessá-los.
No entanto, a capacidade humana de reação – o homem é um ser
que responde às suas circunstâncias – impede que fechemos os olhos para o que
já foi conquistado e para a vida que flui. Ela pulsa nas batalhas cotidianas
pela felicidade e nas lutas pela liberdade, pela democracia, pelo futuro.

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