O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu
cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação
premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas,
bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas
outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem
glúten, sem agrotóxicos.
Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga
canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo
guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um
segredo de mentirinha.
Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história.
Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros
bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na
recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com
a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.
É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado,
quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na
divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais
— muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os
seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão
sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”,
essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.
Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão
séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130
milhões do contrato com a mulher de Alexandre
de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que,
ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O
dinheiro investido no resort em que familiares de Dias
Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom
que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado
ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há
muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.
São problemas que deveriam estar na pauta. Mas competem com
outros, como as festas na casa de Trancoso. Foram trazidas algumas mulheres do
Leste Europeu que não tinham a mínima ideia dos homens com quem festejariam. A
grande expectativa são as fotos e vídeos dessas festas. Como se Vorcaro e seus
convidados fossem descuidados o bastante para permitir isso. As pessoas estão
sintonizadas no escândalo errado, o de Jeffrey
Epstein, nos Estados Unidos.
Isso não significa que não tenha havido festas e,
possivelmente, que as mulheres não tenham sido vítimas de algum tipo de
exploração criminosa. Pode ser até que Vorcaro tenha instalado câmeras secretas
em Trancoso. Mas por que usaria essa tática se possivelmente comprou a
fidelidade de políticos e juízes com muito dinheiro?
A realidade sem festas — gente com pouca roupa, louras
europeias beijando maduras autoridades republicanas — é apenas a realidade de
milhares de pequenos investidores roubados. Não podemos nos afastar dela no
exame da responsabilidade de Vorcaro e seus cúmplices na política e na Justiça.
Artigo publicado no jornal O Globo em 24 / 03 / 2026

Nenhum comentário:
Postar um comentário