Um brasileiro fez um discurso em inglês, em Nova York, e
foi aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo
conteúdo do discurso
Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em
dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova
York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e
não pelo conteúdo do discurso.
Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e
humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na
roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da
estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista
americana, com belas fotografias em preto e branco.
Perguntei ao jornaleiro quanto custava a
revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”,
justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu
tonto.”
Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era
um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos
pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima
gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.
Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros
baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos
que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente,
mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à
Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.
E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de
Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão
dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido
como o Águia de Haia.
Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o
presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”.
“Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente
discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito
internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o
Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.
Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial
de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em
diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos
inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa
frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais
havíamos visto.
Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era
principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi
uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do
Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem
as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o
português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo
acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura
divina.
Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de
chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido:
“São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.
Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a
mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em
língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus
fala inglês”.
Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e
pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir
nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de
periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares,
dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o
outro, com sotaque inglês, “traduzia”.
Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma
língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava
latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez
explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.
O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido
de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É
um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América
e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas
falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas
conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da
República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da
pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.

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