A CPI do Banco Master não será aberta porque há interesse
suprapartidário para que ela não exista
Entramos no campo da atividade mafiosa a partir dos diálogos
e confirmações de que Daniel Vorcaro não era apenas um audacioso investidor
financeiro que levou seu Banco Master a um esquema de pirâmide que lesou
milhares de investidores e fundos públicos. Vorcaro era mais que um
trambiqueiro de colarinho branco; era um bandido que montou uma quadrilha de
delinquentes para ameaçar e desestruturar qualquer um que viesse a denunciar
suas atividades criminosas. Podia ser uma empregada doméstica que ouviu mais do
que devia ou o cozinheiro que ele imaginava ter gravado uma conversa indevida.
Uma clara ação mafiosa, cujo braço armado tinha o sugestivo codinome de
“Sicário”.
O avanço das investigações demonstra também
que o ministro Dias Toffoli tinha todo o interesse em controlar as
investigações e atrasar o trabalho da Polícia Federal (PF). Existem cerca de
cem celulares de Vorcaro e seus interlocutores que ainda nem foram investigados
pela PF porque ela temia que qualquer avanço pudesse ser anulado por decisão de
Toffoli — como sabemos agora, ele havia criado um clima de suspeição sobre a PF
justamente para constranger suas ações.
Outro detalhe interessante: ao descobrir que Vorcaro tinha
um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, em que dava ordens para crimes, ele
poderia ser enquadrado na CPI do Crime Organizado, porque estava organizado
para cometer qualquer tipo de crime — financeiro, agressão, ataques etc.
Certamente o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) tentará essa brecha para
insistir na quebra de sigilo bancário da Maridt, sociedade dos irmãos Toffoli,
que vendeu o resort Tayayá a um fundo ligado a Vorcaro por cerca de R$ 35 milhões.
Dificilmente, porém, essa providência seria bem-sucedida,
pois há uma tendência no Supremo Tribunal Federal (STF) de evitar que as CPIs
ampliem demais seu escopo. Todas as CPIs, segundo alegam, investigam crime
organizado, como a do INSS, que tem uma investigação isolada. A CPI do Banco
Master não será aberta porque há interesse suprapartidário para que ela não
exista, já que são vários, de várias legendas partidárias, os envolvidos de uma
maneira ou de outra com Vorcaro e seus tentáculos financeiros.
O episódio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), denunciado
pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, é exemplar desse envolvimento, mesmo que
seja indireto. Cada vez que se abre a investigação, que há informações novas,
as coisas vão ficando mais claras, e é isso que Toffoli tentou evitar o tempo
todo. O ministro André Mendonça, que assumiu como relator em seu lugar, está
disposto a enfrentar todos e ir adiante — até criticou o procurador-geral da
República, que não viu premência para analisar o caso, embora estivesse claro
nos autos que havia risco de vida envolvido, como no caso do jornalista Lauro
Jardim, do GLOBO, contra quem era armado um falso assalto para “quebrar todos
os seus dentes”.
Mendonça não quer e não fará estardalhaço com o resultado
das investigações, mas está com o firme propósito de ir até o fim para
esclarecer o caso. Ele tem as informações, por isso nem sabe onde tudo vai dar
— sabe que não é só o que foi divulgado. Prevejo uma ação mais forte dele na
sequência de investigações. A polícia já sabe, Mendonça sabe e Toffoli sabe,
por isso tentou esconder. Ao fechar o cerco nas investigações, a PF abre a
possibilidade de que Vorcaro venha a fazer delação premiada. À medida que os
campos institucionais em que enterrou suas garras acabam — aliados ou
funcionários federais em órgãos fundamentais como Banco Central ou Tribunal de
Contas da União, deputados e senadores comprados pelo dinheiro criminoso, agora
identificados —, ele vai perdendo a esperança de sair impune e pode querer
levar mais gente junto.

Nenhum comentário:
Postar um comentário