Ataques a jornalista são o que grupos feministas chamam
de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu
Malu
Gaspar é até aqui a jornalista responsável pelas revelações mais
relevantes sobre o escândalo do Banco Master. Desde que passou a expor no GLOBO
as ligações do ministro do STF Alexandre
de Moraes e de sua família com o ex-dono do banco, Daniel
Vorcaro, tornou-se alvo de ataques abjetos, maciços e incessantes nas redes
sociais.
Pelo exercício de seu ofício, vem recebendo ameaças e
insultos que tentam constrangê-la e humilhá-la, muitas vezes com base em
referências a sua condição de mulher. Tais ataques configuram precisamente o
que grupos feministas chamam de “violência política de gênero”. Ainda assim,
nenhum desses grupos veio a público defendê-la. Nenhuma nota ou carta aberta —
nem mesmo um reles vídeo no TikTok.
Trata-se de silêncio que não se observou
quando outras igualmente valorosas profissionais da imprensa expuseram
malfeitos de bolsonaristas e foram por eles atacadas. Nesses casos, as
jornalistas receberam um uníssono coro de solidariedade vindo de coletivos
feministas e organizações de mulheres que não soltam a mão de ninguém e
consideram um ataque a uma jornalista mulher como ataque a todas as jornalistas
mulheres. Desta vez — em que o foco das reportagens é não um presidente de
direita, mas um juiz eleito herói da resistência pela esquerda —, porém, nenhum
desses grupos encontrou algo para dizer em defesa de Malu Gaspar.
Mais que não ser defendida, ela vem sendo atacada por
setores da esquerda. Militantes petistas pedem abertamente sua demissão, e
sites de esquerda estimulam a perseguição a ela (não por coincidência, alguns
desses sites figuram nos autos do inquérito Master como fregueses da
generosidade suspeita de Vorcaro, mas essa já é uma conversa que transcende a
hipocrisia ideológica — é assunto de polícia).
Dos teclados desses militantes saem as mais sórdidas fake
news — e também as mais hilariantes desculpas para o indesculpável (o troféu
cara de pau fica com a feminista que invocou o imperativo do respeito à
“independência profissional das mulheres” para justificar o contrato milionário
de Viviane de Moraes com Vorcaro, numa mostra de que, ao contrário de quase
tudo na vida, o cinismo e a capacidade de autoengano não conhecem limites).
Nada disso chega a surpreender. Historicamente, a esquerda
fundamentalista, sempre indulgente com modelos totalitários, não se vexa em
trocar seus alegados princípios pela proteção de seus vilões preferidos — como
podem confirmar, das profundezas do inferno, camaradas de mãos ensanguentadas e
um punhado de aiatolás recém-chegados. A mesma condescendência, essa esquerda
dedica a seus suspeitos de estimação.
Um ministro do STF tinha encontros recreativos com um
banqueiro adepto de práticas financeiras heterodoxas? Foi flagrado pela Polícia
Federal trocando mensagens com esse banqueiro no dia de sua prisão? Respondeu
com mensagem de visualização única à pergunta “Conseguiu ter notícias ou
bloquear”? Sua mulher tinha um contrato de R$ 130 milhões com o agora
ex-banqueiro-presidiário? Não tem importância. Salvo-conduto moral para os
heróis da turma, e que ardam nas redes aqueles que ousarem colocá-los sob má luz.
Foi o que fez Malu Gaspar como consequência de uma apuração
profissional rigorosa. A jornalista não precisa que ninguém a defenda — sua
trajetória e reputação cumprem com sobra esse papel. Mas é desolador constatar
que, para os fundamentalistas da esquerda brasileira, nas revoluções como nos
escândalos, princípios só valem quando servem para atacar o inimigo; é lícito e
legítimo linchar quem aponta o dedo para um aliado; e todos os fatos merecem
ser revelados, à exceção dos inconvenientes.
Ataques a Malu Gaspar são o que grupos feministas chamam de
‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu.

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