Temos muitos temas estratégicos para discutir. E outros
urgentes, como o impacto da guerra e do fechamento do Estreito de Ormuz em
nossa economia. No entanto, será difícil avançar em algo enquanto a atenção
nacional estiver concentrada no escândalo do Banco Master.
Escândalos financeiros de maior volume, como foi o caso de
Bernie Madoff nos EUA, foram muito discutidos, mas não conseguiram monopolizar
o debate político. O caso brasileiro é crucial, porque envolve autoridades
políticas, financeiras e judiciárias. Mais especificamente, algo inédito na
História: dois ministros do Supremo Tribunal Federal.
Existe uma intensa batalha de bastidores entre avançar nas
investigações ou enterrá-las. Ela se manifesta em inúmeros movimentos táticos.
Houve um erro, por exemplo, na divulgação de diálogos íntimos de Daniel
Vorcaro. A dramatização desse erro indiscutível pelo ministro Gilmar Mendes
mostra que a investigação corre risco.
O erro se deu pela incapacidade de separar as frases íntimas
das de interesse político. Ou, melhor, os diálogos que são ao mesmo tempo
íntimos e de interesse público. Entre esses, destaco os momentos em que ele
conta seus encontros com autoridades brasileiras, a reunião com Hugo Motta e
Alexandre de Moraes, o momento em que o ministro o visita em Campos do Jordão.
Mais interessante, nesses diálogos íntimos de interesse
público, é a confissão da compra de propriedade em Miami, que ficaria no nome
de um russo para despistar. As propriedades de Vorcaro são de interesse público
porque podem ressarcir os prejuízos que ele deu. Nem todos esses prejuízos
foram cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Diz-se que apenas 30% dos celulares de Vorcaro foram
periciados. Até o momento, portanto, a luta mais decisiva a respeito das
investigações é sobre avançar ou não sobre os ministros Dias Toffoli e
Alexandre de Moraes.
O ministro Toffoli deixou muitos flancos. Tentou controlar
as investigações, decretando sigilo e escolhendo peritos, mas acabou sendo
derrubado da relatoria do caso por um relatório da Polícia Federal (PF).
Toffoli vendeu uma parte de seu resort para o cunhado de Daniel Vorcaro. Outra
parte, a vendeu para um advogado da J&F, a mesma empresa que teve multa de
R$ 10,3 bilhões anulada por ele.
No dia de sua primeira prisão, Vorcaro trocou mensagens com
Alexandre de Moraes, que aparece como seu amigo nos diálogos. A mulher de
Moraes, Viviane Barci, tem um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master.
Segundo ela, sua tarefa foi formular o compliance do Master. A
operação que prendeu Vorcaro tem o nome de Compliance Zero.
Quais os caminhos possíveis da investigação?
Independência da Polícia Federal para seguir, apesar das
consequências. Isso vai depender de algumas variáveis. O ministro André
Mendonça quer uma PF sem influência de seus chefes máximos. Conseguirá? Por
outro lado, o próprio Mendonça resistirá à pressão do STF? Na célebre reunião
em que os ministros definiram a solidariedade a Toffoli, Mendonça também
embarcou no todos por um, um por todos.
O procurador-geral nem é bom lembrar. Como se diz na gíria,
ele é assim com os homens, isto é, dificilmente quebrará os laços
de amizade que o levaram ao posto.
Resta um grupo de senadores que se articula para fazer uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O problema das CPIs é que dependem de
Davi Alcolumbre. E ele jamais as permitirá, porque é um investigado em
potencial. O instituto de aposentadoria do Amapá (Amprev) investiu R$ 400
milhões em ativos do Master. O responsável foi indicado por Alcolumbre. Como
ele poderia ter descoberto o negócio estando tão longe? Vorcaro frequentou a
casa de Alcolumbre. Não teriam falado sobre isso? Só a investigação poderá precisar.
Resta a jogada final: delação de Daniel Vorcaro. É algo
visto com muito entusiasmo. Mas o depoimento tem de ser colhido com
independência. Num sistema tão complexo, é possível produzir uma delação
premiada que alivie Vorcaro, defina alguns bodes expiatórios e salve todos os
graúdos.
Tudo é possível no Brasil, daí a singularidade de nossa
vida. Ela é um sobressalto. Isso não é razão para tentar um bom resultado em
todas as etapas.
Em caso de investigação, que seja séria e fundamentada; em
caso de delação premiada, que seja examinada com lupa.
É preciso esperar, também, que a justiça funcione na
condenação dos culpados. Ela costuma ser longa e, às vezes, branda. No caso dos
políticos, isso é atenuado pelas eleições. Os próprios eleitores assumem seu
papel, como foi no caso da CPI dos Sanguessugas: mais de 90% dos envolvidos
foram derrotados nas urnas.
Com domínio de uma grande parte do orçamento federal, os
políticos criaram uma inesgotável fonte de propaganda. Pode ser que isso os
salve. Mas a bancada do Master foi ativa, tentando elevar o teto coberto pelo
Fundo Garantidor de Créditos (Ciro Nogueira) e demitir funcionários do Banco
Central (todos os líderes do Centrão).
Deveriam ser investigados, pois foram o braço parlamentar de
um grande prejuízo para os brasileiros, não só os que investiram no Master, mas
milhares de aposentados.
Artigo publicado no jornal Estadão em 13 / 03 / 2026

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