Dá para ficar tranquilo diante da guerra no Golfo
Pérsico? Não dá. O Brasil importa cerca de 20% do petróleo produzido na
região, além do que 70% dos fertilizantes usados na agricultura (42 milhões de
toneladas), 30% passa pelo Estreito de Ormuz. São mais de 10 milhões de
toneladas. Como efeito da guerra, Putin resolveu suspender por um mês,
renovável por mais um, as exportações desses insumos. No Brasil essa
interrupção cai justamente na época de plantios. Significa, portanto, que a
safra brasileira de grãos, projetada para 354 milhões de toneladas, que supre o
mercado interno e torna o Brasil um dos principais produtores de grãos do
Planeta, corre sérios riscos de ter, em 2026, uma menor produtividade e, em
consequência, uma redução significativa da produção. Não sei se pode faltar
alimentos, mas tudo tende a ficar mais caro.
Diante desse cenário que se projeta pelo
mundo, a queda de regimes políticos, a mudança de ideologias, as anexações de
países deixaram momentaneamente de inspirar conspirações, invasões e derrubadas
de governos. Aparentemente, está sendo provocado um redesenho das
alianças globais. A globalização se fragmenta e surgem diferentes polos de
Poder. Mas, o protagonismo está agora com os "Estreitos", essas
passagens naturais ou artificiais de largura e profundidade adequadas, que
conectam mares ou oceanos, permitindo o comércio, a navegação de grandes
graneleiros e petroleiros, bem como o exercício pleno de uma geopolítica. De
repente, contudo, ao invés de ajudar no diálogo, descobriu-se que eles contêm
os gérmens de grandes conflitos.
Bab el- Mandeb, Ormuz, Suez e Málaca são apenas quatro dos
49 Estreitos que, protagonizam o comércio mundial. Por eles passam o petróleo,
o gás natural, os fertilizantes, as importações e exportações que dinamizam a
economia e alimentam a população do Planeta. Eles abrem as portas, diminuem as
distâncias e reduzem os custos do transporte. Os mais estratégicos são mesmo o
de Ormuz, no golfo Pérsico, por onde transita 20% do petróleo no mundo; o de
Gibraltar, entre o Marrocos e a Espanha, que conectam o Oceano Atlântico aos
países do norte da África, do sul da Europa e do Oriente Médio; o de, Malaca,
entre a China e a Indonésia, que permite o acesso aos países asiáticos; e o de
Bab el-Mandeb facilita o acesso ao canal de Suez, à Ásia, à Europa e
vice-verso. Dover, entre a França e a Gran Bretanha, permite o tráfego livre
dos dos países nórdicos; e o de Bhering, separando a Rússia e os Estados Unidos
(Alasca) da mesma forma. Mas alguns, como pontos de passagem, enfrentam embates
políticos sérios com vizinhos, como o do o mar Báltico, um mar interior, que
opera como um Estreito para o tráfego de vários países. O de Suez já gerou
várias crises internacionais.
Todos eles estão ligados aos países que banham com suas
águas, e que exercem sobre eles um direito de soberania, embora funcionem como
vias internacionais. Em alguns o trânsito é livre, em outros é preciso de
autorização do país detentor dessa autonomia. O fechamento de qualquer um
desses estreitos gera, contudo, crises econômicas ou políticas, com dezenas de
outros que usam aquela passagem para transportar seus produtos importados ou
exportados. Certas cargas são gêneros de primeira necessidade, até perecíveis,
outros combustíveis que alimentam parques industriais ou movem os sistemas
produtivos. A discussão, por isso, é complicada. A ONU dispõe de uma agência
especializada, a IMO (Organização Marítima Internacional), para regular a
segurança e o tráfego do transporte marítimo mundial, encarregada de definir
padrões técnicos, de segurança e ambientais para navios em escala global.
Funciona! Não sei, mas que chega sempre atrasada, é verdade.
Enquanto o Irã tenta usar o Estreito de Ormuz como arma de
guerra ou de chantagem, na ONU a China articula um veto contra o uso da força
para sua reabertura, mesmo que seja para proteger o tráfego de 20 % do petróleo
e do gás natural que alimenta os sistemas energéticos no mundo. Os pequenos
países árabes do Golfo Pérsico, também produtores e exportadores de petróleo,
reagiram às ameaças "globais" do Irã e o denunciaram na ONU. O
Conselho de Segurança da ONU está votando uma resolução do Bahrein para proteger
a navegação por Ormuz.
A resolução em debate autoriza "todos os meios
defensivos necessários" para proteger os navios comerciais. A medida
valeria por pelo menos seis meses, segundo a proposta original finalizada pelo
Bahrein - um dos ameaçados -, que preside o Conselho. Tem 15 membros, entre os
quais está o Brasil. A diplomacia brasileira está preocupada com o desfecho
institucional, mas o o governo do Brasil tem sido um dos estimuladores das
reações do Irã à possibilidade de invasão dos EUA, Israel, Otan e outros países
do Leste. A Rússia, que também apoia do Irã, é uma das afetadas. Sem
arriscar-se a se meter diretamente no conflito, ela reforça as pressões para o
fim da guerra. Suspendeu por 30 dias a exportação de fertilizantes. Ela detém
mais de 40% dos suprimentos desses insumos agrícolas para o mundo.
O Brasil está dentro dessa armadilha, que parece caminhar em
direção ao caos: escassez de combustíveis, de gás natural, de hélio (para
resfriamento de microprocessadores digitais, e, sobretudo, de fertilizantes). O
agronegócio do Brasil, esse que alimenta os brasileiros e gera saldo na balança
comercial, está ficando sem acesso aos fertilizantes importados. Os demais
fornecedores não têm condições de substituir os fornecimentos russos. Significa
então que em 2026 a produtividade será menor, a próxima safra de produtos
agropecuários mais reduzida, a oferta de produtos alimentares diminuirá e a
inflação vai subir. A guerra está chegando aqui no consumidor, nas donas de
casa. Vamos torcer para que não agrave a fome no mundo.
*Jornalista e professor

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