Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante
de Donald Trump?
Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese
para adultos, aprendeu essas lições
Tempos interessantes. Os Estados
Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em
assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito
aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso
é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.
Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos
últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente
bizarrice trumpista.
Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que
transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das
investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros
da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.
Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de
joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.
Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da
França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar
o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto
terminou mal para o papa.
E que dizer de Henrique 8º
e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina
de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura
com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.
Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a
mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução
Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder
espiritual. E vice-versa.
Donald Trump é
o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não
abençoe sua guerra
no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?
Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante
do imperador de Washington?
Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a
personalidade de Trump, é Napoleão
Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo
que encontro.
Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa
assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a
Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a
república.
Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados
enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a
supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para
restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.
No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava
pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão.
Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter
de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.
Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão
arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa
recusou.
Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota
d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos
ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio
continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.
O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva
pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um
papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em
1809 e sequestraram o papa.
Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder
do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.
É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald
Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás
Maduro na Venezuela,
por que não com Leão 14?
Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre
Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda
concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente
esmagado em Waterloo.
O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um
herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.
Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores
passam, mas o papado permanece.
Não sei se o vice J.D. Vance, em
suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam
valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.
A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo
poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.
*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade
Católica Portuguesa.

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