João Pereira Coutinho*, Folha de S. Paulo
Universidade Yale fez diagnóstico sombrio sobre o estado
da instituição.
Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está
"no caminho errado".
Houve um tempo em que o mundo olhava com admiração para
a universidade.
Esse mundo está desaparecendo.
Um relatório recente da Universidade Yale faz um diagnóstico
sombrio sobre o estado da instituição. As conclusões do estudo podem ser
aplicadas, sem esforço, a outros países que enfrentam problemas semelhantes.
Basicamente, há uma queda de confiança dos americanos no
ensino superior. Em 2014, 57% confiavam no sistema; em 2024, o número desceu
para 36% —um mínimo histórico. Não é de admirar que 70% afirmem que a
universidade está "no caminho errado".
Três razões explicam esses números: custo,
admissões e conformidade ideológica. A inflação das notas também contribui para
o desânimo: classificações máximas para talentos mínimos são uma praga que
corrói qualquer pretensão de seriedade intelectual. Mas não vamos nos perder
nisso.
Imaginemos, antes, um pai de família que sonha em dar ao
filho uma educação de
excelência. Confrontado com a realidade, pergunta-se: vale a pena pagar
mensalidades altíssimas quando o retorno, em certas áreas científicas, nem
sequer está garantido?
Vale a pena confiar num processo de admissão opaco e
injusto, que muitas vezes favorece os mais ricos ou os filhos de ex-alunos
influentes?
E quem, em sã consciência, enviaria o filho para centros de
doutrinação agressiva onde o ressentimento antiocidental ocupa o lugar do
conhecimento? Pior: ambientes em que a liberdade de expressão pode ser uma
sentença de morte acadêmica?
O relatório, em tom nostálgico, cita o historiador C. Vann
Woodward, professor da casa, que defendia: a universidade existe para garantir
"o direito de pensar o impensável, discutir o indizível e desafiar o
indiscutível". Risadas?
Hoje, o aluno médio de Yale e de outras instituições
espalhadas pelo Ocidente olha para essas palavras como um "convite para
uma decapitação" —obrigado, Nabokov. No caso, a sua.
Em Yale, quase um terço dos estudantes não se sente livre
para expressar as suas opiniões —o dobro de há uma década. O desconforto é
ainda maior entre os estudantes mais conservadores.
É compreensível: nos Estados Unidos, professores que se
identificam como democratas superam os republicanos numa proporção de cerca de
10 para 1. Em Yale, pode chegar a 30 para 1.
Diante de um diagnóstico tão severo, os autores propõem, sem
surpresa, uma reversão das más práticas: defender a liberdade de pensamento,
promover o pluralismo interno, tornar o sistema de admissões mais transparente,
e assim por diante. A ideia é esperar que a mudança venha de dentro, antes que
seja tarde demais.
É uma ideia interessante, porém romântica: a universidade
raramente muda por vontade própria. A história ensina o contrário: ela só muda
quando o custo de não mudar se torna insustentável.
Na Idade Média, a universidade era um prolongamento da
igreja, servindo um mundo em que a visão religiosa era dominante. Quando esse
mundo passou a exigir juristas ou administradores para a edificação do Estado
moderno, a velha escolástica cedeu espaço a estudos mais pragmáticos do
direito.
As grandes navegações ibéricas revalorizaram a matemática e
a física —antecâmara da revolução científica dos séculos 17 e 18. A
universidade, relutantemente, adaptou-se.
E continuou se adaptando com o Iluminismo, o modelo
humboldtiano —que privilegia a produção, não apenas a transmissão, de
conhecimento— até chegarmos à rivalidade da Guerra Fria,
motor de avanços científicos e tecnológicos do século 20.
Posso não ter simpatias marxistas, mas há momentos em que a
"estrutura", de fato, condiciona a "superestrutura". Não
foi o amor à verdade que agitou a rigidez dogmática das universidades. Foi o
mundo ao redor. Esse mundo continua falando —e hoje tem dúvidas sobre o custo,
a transparência e o papel da universidade.
Quando essas dúvidas se traduzirem em perda real de alunos,
redução de financiamento, desvalorização dos diplomas e concorrência de novos
modelos de formação, a universidade será novamente obrigada a se repensar.
Mais uma vez, não será por amor ao debate livre que os
docentes mais fanáticos mudarão de atitude. Será quando os próprios salários
estiverem em risco. Nada promove mais a tolerância do que a intolerância da
conta bancária.
Os problemas que o relatório de Yale identifica são,
ironicamente, possibilidades de salvação. As universidades não sobrevivem
apenas pelas suas virtudes, mas também pelos seus vícios. Quando estes se
tornam caros demais para ignorar, entra em cena a velha lei darwinista:
adaptação —ou extinção.
*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade
Católica Portuguesa

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