A guerra ainda não acabou, mas já nos deu um farto material
de reflexão para além do simples ajuste do preço do diesel e do querosene de
aviação. A primeira conclusão estratégica é óbvia e bastante velha: é preciso
realizar logo a transição energética e liberar o País da dependência de
petróleo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Irã. Em todos os lugares em que os
norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo.
Essa guerra no Irã tem se caracterizado por ataques à
infraestrutura energética. O fechamento do Estreito de Ormuz era uma das
consequências previsíveis, mas os EUA não a consideraram. Trump deu uma pista
da indiferença americana, afirmando que os EUA tinham muito petróleo. Na visão
dele, se os europeus não tivessem coragem de abrir o estreito, poderiam comprar
óleo nos EUA, que o tem em abundância.
Outra lição importante deve estar sendo aprendida pelos
países do Golfo que confiaram na segurança de seu grande aliado. Os EUA não só
fizeram uma guerra por escolha na região como não foram capazes nem de defender
suas bases, quanto mais portos e refinarias.
O fôlego da resistência iraniana nos faz pensar um pouco no
que se transformou a guerra moderna. Costumamos imaginá-las com aviões e
navios, mas desde a Ucrânia que os drones ocupam um lugar de destaque. Mísseis
e drones parecem ser a base de uma defesa eficaz.
O Brasil já pode construir aviões supersônicos, depois de
comprar os caças Gripen da Suécia. O compromisso de transferência de tecnologia
funcionou. Dilma acertou. No entanto, de lá para cá, algo mais simples,
aparentemente, aparece como uma grande arma. Certamente os especialistas em
segurança brasileiros devem ter se dado conta disso, e, em breve, estaremos
fabricando drones brasileiros em quantidade industrial. Na minha concepção de
leigo, deveríamos avançar nesse campo, aprendendo ao máximo com os ucranianos
forçados a desenvolver modelos cada vez mais eficazes.
No campo dos mísseis, o Brasil já produz os seus. O famoso
Matador e outros, que colocam o País num grupo de nações que detêm o ciclo
completo da tecnologia de mísseis. Pelo que se vê no Irã, não se trata apenas
de ter mísseis, mas tê-los em grande quantidade. O Irã se preparou 40 anos para
uma guerra. O Brasil é um país democrático e pacífico. Talvez não precise de
tanta rigidez em seus planos. Mas algumas ideias que estamos vendo no terreno
poderiam ser examinadas aqui.
Uma delas é a cadeia de comando com alternativas bem
definidas, de forma que a morte de um líder seja imediatamente substituída por
outro. Outra questão importante: a descentralização. O Irã é cinco vezes menor
do que o Brasil. Teve algum sucesso descentralizando suas forças. Num país de 8
milhões de quilômetros quadrados, a descentralização é um desafio ainda maior,
considerando áreas pouco habitadas como a Amazônia.
Não imaginei que estivesse de refletir sobre esses temas. O
mundo mudou muito nessa segunda década do século. Falar de guerra não é um
devaneio vicioso. A lei do mais forte subitamente subiu ao topo da agenda com a
visão de Trump e com a invasão da Ucrânia pelos russos. Fala-se hoje de acabar
com uma civilização com muita naturalidade. O bombardeio de infraestrutura
civil é um crime de guerra, mas não constrange ninguém. Não só as
infraestruturas civis, mas os próprios civis foram bombardeados em Gaza.
As alianças estão se desfazendo, a começar por aquela que
marcou o pós-guerra: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O que
era trabalho comum está se desfazendo na cumplicidade de Trump com a Rússia na
Ucrânia, no desejo manifesto de ocupar a Groenlândia. Mesmo na América Latina é
difícil hoje uma ampla posição de independência. Grande parte dos governos se
rendeu ao fascínio poderoso de Trump.
O Irã se preparou anos para o pior, pois o tipo de governo
ditatorial não espera outra coisa, além da guerra. Não é o caso do Brasil, que
sempre vai trabalhar com o diálogo e soluções políticas para os conflitos.
Mas no mundo atual, como diz o primeiro-ministro do Canadá,
Mark Carney, quem não senta na mesa está no menu, o perigo de ser engolido é
muito grande. O que diriam as novas gerações se deixássemos de notar os sinais?
Não há nenhuma urgência, nenhum pânico. Apenas uma tendência
que não pode ser ignorada, inclusive, no ano eleitoral. Não temos inimigos, mas
o excesso de confiança em Trump pode levar ao desastre. Os países do Golfo não
foram protegidos, ao contrário, Trump levou a guerra para lá. E os que dependem
do Estreito de Ormuz ouviram isso: se virem, temos petróleo de sobra. Uma
versão rude do slogan America First.
Um homem que acorda disposto a acabar com uma civilização
que existe há mais de 2.500 anos, como diz a música popular, é ruim da cabeça e
provavelmente doente do pé.
Artigo publicado no jornal Estadão em 10 / 04 / 2026

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