Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao
presidente dos Estados Unidos e uma escalada retórica desnecessária que pode
acarretar retaliações da Casa Branca
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas
críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do
Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da
Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha,
Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações
Unidas (ONU). "Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo
dia à noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo
guerra" , disse.
Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da
paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate
eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa
Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo
governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos
efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro
nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.
Ao elevar o tom contra Donald Trump em
Barcelona, Lula mirou dois objetivos centrais: mitigar os efeitos econômicos
internacionais sobre o cotidiano do eleitor e reconfigurar o debate eleitoral
em torno da soberania e da política externa. "O que não pode é o mundo
gastando US$ 2 trilhões e 700 bilhões em armas e o povo passando fome",
destacou Lula. A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre reúne
chefes de Estado e de governo de diferentes regiões do mundo para debater o
fortalecimento das instituições democráticas e os principais desafios globais à
governança.
Criado em 2024 por iniciativa de líderes progressistas,
entre eles Lula e o espanhol Pedro Sánchez, o Fórum Democracia Sempre busca
ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de
movimentos autoritários e extremistas em diferentes países. A edição deste ano
ocorre em meio a conflitos armados em diferentes regiões, como no Oriente
Médio, e ao aumento das tensões políticas internacionais, incluindo embates
envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Lula aproveitou a oportunidade para aprofundar a polarização
política com o presidente Jair Bolsonaro: "Nós temos um ex-presidente
preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro
estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele
continua vivo e vai disputar a eleição outra vez". As pesquisas recentes
mostram que o tempo fechou para Lula: há queda de popularidade e o risco
eleitoral reduz a expectativa de poder. A oposição de direita, com Flávio
Bolsonaro em destaque, avançou em cenários de segundo turno; em alguns
levantamentos, o filho do ex-presidente está à frente fora da margem de erro.
Lula acusou o golpe. "Mas ele é um problema nosso. Ele é um problema do
povo brasileiro. Esse a gente lida com as nossas forças e com as nossas armas
lá dentro", reconheceu.
Guerra e feijão
A escalada do conflito dos EUA e de Israel com o Irã já
pressionou preços de energia e alimentos, com isso, a percepção pública sobre a
economia se deteriora apesar de indicadores macroeconômicos relativamente
sólidos. A alta do preço do petróleo e seus efeitos inflacionários atingem
diretamente custos de transporte, combustíveis e alimentos, amplificando a
sensação de aperto sobre famílias endividadas e sobre os eleitores de renda
média. Lula reforça o discurso de que não cede a interesses estrangeiros na esperança
de atrair eleitores preocupados com autonomia econômica e identidade nacional.
Ao afirmar que "Trump invade o Irã e aumenta o feijão
no Brasil", Lula carrega nas tintas e transforma a geopolítica em apelo
emocional. As pesquisas dirão se conseguirá mobilizar segmentos sociais que
sentem o impacto imediato da inflação e da carestia, bem como eleitores que
valorizam discurso de defesa nacional, embora com certeza mobilize apoio da
base partidária e de atores progressistas internacionais, como no evento da
Espanha. Entretanto, elevar o confronto retórico com os EUA pode bloquear
canais diplomáticos para o Brasil e inviabilizar acordos técnicos e negociações
comerciais e financeiras.
No plano interno, também pode funcionar como bumerangue,
caso o discurso seja acolhido como um oportunismo eleitoral. Há um equilíbrio
frágil entre a crítica legítima a Donald Trump, cuja imagem desce a ladeira nos
Estados Unidos e no mundo, e uma escalada desnecessária que pode acarretar
retaliações econômicas e políticas da Casa Branca. A escolha do evento em
Barcelona e de Pedro Sánchez como interlocutor foi um gesto calculado. O ataque
a Trump reforçou alianças ideológicas e atraiu cobertura internacional
favorável.
Mas o sucesso de Lula depende mesmo é de respostas efetivas
aos problemas econômicos, sociais e políticos internos. O anúncio subvenções a
combustíveis e gás, linhas de crédito para setores estratégicos e tributação
compensatória busca sinalizar ação concreta do governo para mitigar os efeitos
da guerra. Entretanto, as controvérsias dentro do próprio governo sobre a
"taxa das blusinhas", a subvenção à gasolina e a margem para esses e
outros gastos revelam que o governo está propenso adotar a retórica de uma
"economia de guerra" para enfrentar as dificuldades eleitorais.

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