Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que
procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo
fazem para impor a sua narrativa
O mundo tal como existia a partir da 2 . ª Guerra Mundial
desmoronou. Vivemos hoje a sua derrocada progressiva, com o enfraquecimento e o
desaparecimento daí resultantes de suas instituições. Os horrores da 2.ª Guerra
deram lugar, naquele então, a tratados internacionais que respondiam aos
interesses das potências vencedoras. Note-se, todavia, que a paz tinha um
significado restrito, válido para a Europa Ocidental, não se aplicando ao Leste
Europeu. Enquanto a guerra desaparecia desse território limitado, outrora
considerado o centro do mundo, ela proliferava pelo mundo afora. Exemplos são
inúmeros nas invasões de Hungria, República Checa e Afeganistão, no Vietnã, na
Argélia, no Iraque e várias no Oriente Médio, além das africanas. Tudo
sustentado no equilíbrio militar nuclear.
No entanto, estamos vivendo uma espécie de
nostalgia, a de um mundo idílico perdido, como se a história tivesse perdido um
eixo que nunca o teve. Façamos uma analogia. Stefan Zweig, em sua época, viveu
tragicamente a sua nova realidade quando viu se esfacelar o seu mundo. Em 1941,
quando escreve seu livro O mundo de ontem, relata como a bolha em que vivia
explode, visto que tudo apostava num progresso incessante da humanidade em
função de valores mais altos, ancorados em sua experiência própria na cultura europeia,
mormente alemã e austríaca. Era o mundo das belles lettres, da poesia, da
música e da literatura.
Tem desse mundo uma profunda nostalgia, vendo-se desarmado
intelectualmente diante de sua nova realidade. Em sua correspondência com
Einstein, Freud, em sua perplexidade, foi levado a pensar o significado da
guerra, enquanto Zweig ficou preso à sua própria reminiscência, isolado e
perdido. Não lhe passava pela cabeça que o mundo hobbesiano da guerra de todos
contra todos poderia comparecer novamente, sendo considerado algo que tinha
sido superado definitivamente. Qual não foi seu espanto quando a figura bíblica
de Behemoth, monstro da morte e da destruição, bateu à sua porta. O mundo que
se autodestruía o levou ao seu próprio suicídio, em 1942, em Petrópolis, no Rio
de Janeiro.
A ausência de novas categorias capazes de dar conta deste
novo fenômeno da guerra, aliada ao intenso uso de mídias sociais e sites
jornalísticos mundo afora pela esquerda e pela rede islamista, faz com que, na
guerra dos EUA e Israel contra o Irã, fatos desapareçam diante de narrativas
mistificadoras. Vitoriosos são apresentados como derrotados e os derrotados
como vitoriosos. Atente-se à necessária distinção entre uma perspectiva militar
e uma política, sendo essa última a mais propícia para tergiversações
ideológicas e religiosas. Os objetivos militares israelenses e americanos são
basicamente os mesmos, embora o seu enfoque político tenha ênfases diferentes.
Militarmente, os objetivos da guerra já foram alcançados.
Eliminação das lideranças religiosas e militares, obliteração dos sites
nucleares, ficando ainda pendente o urânio enriquecido que jaz sob escombros, a
destruição de mais de 80% dos lançadores de mísseis balísticos, assim como de
seus estoques e fábricas, a marinha iraniana descansando no fundo do mar, a
aniquilação das defesas antiaéreas e o aniquilamento da Força Aérea. Seus
satélites como Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah foram severamente atingidos. O
Irã tornou-se uma pálida figura do que foi. Acrescente-se ainda uma economia
declinante, inflação galopante e perda de valor da moeda. Como se pode, sob
essas condições, clamar por vitória? Politicamente, porém, colocar como
objetivo a mudança de regime é algo que se situa para além da força militar,
por depender fundamentalmente de uma sublevação do povo iraniano, tarefa
essencial sua.
Contudo, certa cobertura jornalística e de comunicação em
geral está produzindo uma forma de dissonância cognitiva ao obedecer a
orientações ideológicas. Com efeito, tem-se frequentemente a impressão de que o
Irã é o vencedor dessa guerra, enquanto os EUA e Israel são os grandes
derrotados. Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura
conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem
para impor a sua narrativa. A batalha, para eles, desenrola-se principalmente
nos meios de comunicação, jornalísticos e nas redes sociais. Chega-se,
inclusive, hoje a um aparente paradoxo. Ao se ler sites jornalísticos nos
Emirados Árabes, no Kuwait, no Bahrein e na Arábia Saudita, tem-se uma visão
muitas vezes mais veraz do que em relatos que seguem a narrativa esquerdista
mundial. Jornalistas árabes indagam-se, perplexos, como se pode ainda falar de
uma vitória do Hamas e da teocracia iraniana, quando estão aos frangalhos,
contentando-se com o que se pode denominar de uma vitimização de Tânatos,
figura da morte, por eles mesmos produzida. Bastaria fazer uma leitura de
fatos, em vez de uma adesão irracional a concepções mistificadoras.
Zweig sucumbe à nova realidade, a mistificação dos fatos
ignora essa mesma realidade.
*Professor de Filosofia na UFRGS

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