Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram
calamidade da política do Rio
Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos
para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a
eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na
tribuna do Supremo.
O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No
Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais
violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para
demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de
Batman.
O Supremo reservou a semana para debater a
crise sucessória aberta pela renúncia de Cláudio Castro. O julgamento foi
paralisado ontem por um pedido de vista, mas já serviu para expor a calamidade
da política fluminense.
“Não há nenhum estado do Brasil que esteja na situação do
Rio”, resumiu o ministro Flávio Dino. Ele relembrou o histórico de sete
governadores presos ou inelegíveis. Poderia ter citado a Assembleia
Legislativa, que já teve quatro presidentes presos. O último, Rodrigo Bacellar,
está trancado em Bangu 8. É acusado de vazar informações sigilosas para o
Comando Vermelho.
“A infiltração do crime organizado na Assembleia do Rio não
é ficção”, ressaltou o ministro Alexandre de Moraes. O decano Gilmar Mendes
disse ter ouvido do diretor da PF que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia
recebiam mesada do jogo do bicho”. “Deus tenha piedade do Rio”, concluiu.
Condenado por desviar dinheiro público para se reeleger,
Castro renunciou para fugir da cassação e evitar novas eleições diretas. Com o
drible, tentou deixar um aliado como governador-tampão indicado por via
indireta. Agora o Supremo precisa decidir se valida o golpe.
O grupo do ex-governador já apresentou seu candidato a
Coringa. É o bolsonarista Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo. O
deputado entrou na política pela via do nepotismo, ao ser nomeado secretário
pelo pai. Passou pela gestão de Castro e agora quer assumir sua cadeira pelas
mãos da Alerj.
Enquanto o julgamento não é concluído, o desembargador
Ricardo Couto segue como governador interino. Presidente do Tribunal de
Justiça, ele tem evitado despachar no Palácio Guanabara, onde as paredes têm
ouvidos.
“Não queria estar no lugar de Sua Excelência”, gracejou
ontem o ministro Kassio Nunes Marques, antes de votar pela eleição indireta.
Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio.

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