O desemprego é o menor da série histórica do IBGE,
iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante
Esta não é uma coluna sobre Big Brother Brasil, o reality
show da TV Globo que adentrou a reta final da 26ª edição. Mas o critério de
eliminação do programa cai como uma luva na análise eleitoral a que me
proponho. Toda semana, o BBB reúne os integrantes indicados, por voto, ao
paredão, e Tadeu Schmidt — a quem abraço e à família pela perda de Oscar, ídolo
de todos nós, torcedores do esporte brasileiro — os convida a declarar em meio
minuto por que cada um deve permanecer na casa hipervigiada pelo prêmio de R$ 5
milhões. Quem decide é o eleitor — digo, o público.
Nesta semana, em mais uma edição da
pesquisa Quaest de intenção de voto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), com 40%, apareceu, pela primeira vez, em desvantagem numérica contra o
senador Flávio Bolsonaro (PL), com 42%, na simulação de segundo turno. Outros
candidatos, do campo da direita, caso dos ex-governadores Ronaldo Caiado
(PSD-GO) e Romeu Zema (Novo-MG), também se mostraram competitivos:
respectivamente, 35% e 36%, contra 43% do petista.
— São dois candidatos que metade do eleitorado diz não
conhecer. Ainda assim, somariam num eventual segundo turno mais de um terço dos
votos. É uma medida do antipetismo ou do antilulismo, a ideia de votar para
eliminar — diz Felipe Nunes, diretor da Quaest.
Há insatisfação com os rumos da economia, mal-estar com a
inflação dos alimentos (1,56% no mês passado); endividamento alto (80,4% das
famílias); combustível mais caro (gasolina subiu 4,49% em março). Seis em cada
dez brasileiros esperavam ser beneficiados pela isenção do Imposto de Renda
para quem ganha até R$ 5 mil, em vigor desde janeiro. Efetivamente, apenas 31%
dizem ter percebido mais dinheiro na conta. A informalidade, que alcança cerca
de 37% dos trabalhadores, ajuda a explicar.
São todas percepções objetivas, a despeito de os indicadores
macroeconômicos e financeiros do Brasil serem positivos. Nesta semana, o Fundo
Monetário Internacional (FMI) reviu para cima a projeção de crescimento deste
ano, de 1,6% para 1,9%. Previu também que o Brasil voltará a integrar os dez
maiores PIBs do planeta. O desemprego é o menor da série histórica do IBGE,
iniciada em 2012; a recuperação da renda é constante. O mercado acionário bateu
32 recordes em 2025 e 18 neste ano. O dólar, desde o início da semana, roda
abaixo de R$ 5, menor nível em dois anos.
Na consulta sobre rejeição, 55% dizem que não votariam no
atual presidente de jeito nenhum. Assim, a derrota de Lula soa irreversível.
Não é. Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, chamou a atenção, em artigo
no GLOBO nesta semana, para os 62% de eleitores que, na pesquisa espontânea, se
declararam indecisos. Sem o auxílio de uma cartela de nomes, seis em dez
brasileiras e brasileiros não foram capazes de indicar seu candidato a
presidente.
A pesquisa Quaest também perguntou aos eleitores se Lula
merece conquistar mais um mandato presidencial: 38% responderam “sim”; 59%,
“não”. Todos os eleitores que concordam com mais quatro anos declaram voto em
Lula no segundo turno de 2026. O mesmo não acontece com os adversários. À
coluna, Felipe Nunes contou que sete em dez que não querem Lula votariam em
Flávio Bolsonaro no confronto direto. A proporção cai para seis em dez para
Zema e Caiado. Significa que 30% a 40% dos eleitores que não querem Lula tampouco
abraçam seus três principais adversários.
Quando chamados a responder quem ganhará a eleição
presidencial deste ano, 48% apontam Lula, 32% Flávio Bolsonaro. O petista é
favorito entre mulheres (49% x 36%) e homens (48% x 36%); jovens (47% a 36%),
adultos (50% a 33%) e idosos (48% a 26%); católicos (54% a 26%); em todos os
níveis de escolaridade e de renda; eleitores de Nordeste (66% a 22%), Sudeste
(44% a 36%), Centro-Oeste e Norte (46% a 33%). É citado como vencedor até entre
os autodenominados independentes (43% a 22%), os “nem-nem” da política — nem
petista nem bolsonarista, nem esquerda nem direita.
Esse tipo de informação empresta ares de BBB à campanha de
Lula. Um eleitorado supostamente cansado de Lula — em chapa com Geraldo Alckmin
(PSB), a mesma de quatro anos atrás — tampouco se empolga por completo com os
adversários e ainda acredita que o atual presidente levará o pleito. O paredão
está formado. Lula, tal como os participantes do reality, tem de dizer aos
eleitores por que ficar. E convencer.
— É o merecimento que está em jogo. O presidente precisa
explicar melhor o que fez e comparar com antecessores — sugere Nunes.
Ontem, na Espanha, Lula defendeu articulação entre países no
enfrentamento ao crime organizado. Aproveitou para lembrar que a política de
flexibilização de Bolsonaro resultou na explosão no número de armas de fogo no
país, boa parte hoje na mão de criminosos. Preocupação crescente do eleitorado,
mulheres em particular, a saúde é também área passível de comparação. E combate
à pobreza. Democracia. Até soberania.

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