O Estreito de Ormuz está fechado. Muitos afirmam que Trump
poderia proclamar vitória com sua abertura. Acontece que ele sempre esteve
aberto antes da guerra. Nesse caso, o objetivo do conflito seria alcançar algo
que já existia antes dele.
Franz Kafka escreveu um conto em que um homem espera muito
tempo na porta de uma fortaleza até descobrir que ela sempre esteve aberta. O
castelo de Kafka simboliza o poder emaranhado em inúmeras medidas burocráticas.
O Estreito de Ormuz, que o Irã partilha com
Omã, sempre esteve lá como passagem de um quinto do petróleo mundial.
Nessa guerra, os Estados Unidos e Israel destruíram
aviões, navios e parte da infraestrutura iraniana. Quatro bases americanas no
Golfo foram devastadas. Mais de 20 aviões foram derrubados, entre eles dois
F-35. Quatro radares de mais de US$ 1 bilhão cada também foram destruídos.
Tudo isso sem contar os gastos cotidianos da guerra. Os
navios não têm porto seguro para reabastecer e precisam rumar para Diego
Garcia, distante quatro dias do Golfo, nos confins do Oceano Índico, última
base britânica compartilhada com os Estados Unidos. Isso deve elevar ainda mais
os custos de uma aventura bélica impensada.
Vasculho diariamente os comentários nos Estados Unidos sobre
a guerra. Ninguém parece a favor. Mesmo se Trump declarar vitória, o quadro no
Oriente Médio não será mais o mesmo. Os países do Golfo, que confiam nos
Estados Unidos e, de certa forma, pagam por sua segurança, viram-se de repente
atacados em função da aventura americana, que foi incapaz de protegê-los.
A própria situação de Israel não será a mesma. O resultado
do confronto entre dois poderosos aliados e o Irã não foi satisfatório. Qual
seria a situação se se enfrentassem apenas Israel e Irã? Muitos analistas
afirmam que a bomba atômica entra nos cálculos de Israel.
A questão é esta: o Estreito de Ormuz é um xeque-mate.
Energia, geopolítica e guerra estão profundamente entrelaçados. Mais algumas
semanas, e a repercussão mundial — no preço da energia e dos alimentos — pode
se fazer sentir. Insatisfação social, quebra de empresas, depressão.
A promessa de Trump de destruir a infraestrutura energética
do Irã, inclusive a grande produção de gás, apenas precipitará esse cenário
negativo. O pior é que ele ameaça também as instalações de dessalinização, que
garantem água potável para os iranianos. Segundo a lei internacional, isso é um
crime de guerra. Dificilmente Trump se incomodará com a lei internacional.
Creio que estamos assistindo a uma loucura: um narcisista
megalomaníaco, com discursos de glória e poder, conduz o império americano para
o seu fim. Nossa conjuntura nacional está muito animada. Brigas homéricas no
Congresso, onde, no mínimo, se acusa o outro de estuprador, aviões de Vorcaro
cruzando os ares com ministros do Supremo e uma discreta discussão sobre o
preço do diesel.
Daqui a pouco, a gente se dará conta de como o mundo está
mudando, e essa guerra no Irã não é apenas mais uma, mas pode redefinir o
panorama internacional como poucos grandes acontecimentos históricos fizeram.
Artigo publicado no jornal O Globo em 07 / 04 / 2026

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