Negociações entre Irã e EUA não passam de encenação e
guerra reduz influência americana
Apesar da exibição de força militar avassaladora,
conflito ampliou a percepção de falta de discernimento estratégico de Donald
Trump
Os acordos de reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e de
cessar-fogo entre Israel e o Líbano não passam de encenações. A queda no preço
do petróleo e as altas nos mercados de ações são movimentos especulativos.
O que o Irã “aceitou” foi manter aquilo que já havia
imposto: os cargueiros têm de passar por corredores estabelecidos pela marinha
iraniana. O Esquema de Separação de Tráfego (TSS), que funcionou tão bem desde
os anos 60, está comprometido pelas minas lançadas pelo Irã.
O cessar-fogo no sul do Líbano não tem
consistência porque Israel mantém tropas na área, o Hezbollah não aceita esse
status e o exército libanês não tem meios de controlar a milícia pró-Irã.
A decapitação de Ali Khamenei, autor de decreto religioso
que proibia a bomba nuclear, eliminou o maior fator de contenção no regime.
Agora, ele é dominado pela Guarda Revolucionária, que ambiciona a bomba, ainda
mais depois dessa guerra.
Donald Trump tenta mascarar o fato de ter rompido um acordo
nuclear, firmado em 2015 por Barack Obama, que restringia efetivamente o
enriquecimento do urânio, com as inspeções mais invasivas da história da
Agência Internacional de Energia Atômica. Só depois desse rompimento em 2018
foi que o Irã elevou o enriquecimento de 441 kg de urânio, de 3,67%, que gera
energia elétrica, para 60%. A bomba requer 90%.
INFLUÊNCIA. Apesar da exibição de força militar
avassaladora, a guerra reduziu a influência dos EUA e ampliou a percepção de
falta de discernimento estratégico de Donald Trump e outros integranteschave de
seu gabinete.
Em contrapartida, elevou o peso geopolítico da China e o
perfil pessoal de Xi Jinping. Na última semana, peregrinaram a Pequim o
primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi,
Khaled bin Mohamed, o presidente do Vietnã, To Lam, e o chanceler e
vice-primeiro-ministro da Itália, Antonio Tajani, além do chanceler russo,
Serguei Lavrov.
Nos 18 meses antes da guerra, a China estocou 1,5 bilhão de
barris petróleo, segundo fontes do setor. Isso é o triplo da reserva
estratégica dos EUA, maior produtor mundial, de acordo com essas fontes.
Mais de 40 países participaram de uma cúpula virtual
liderada por França e Reino Unido sobre uma coalizão para garantir a livre
navegação no Estreito de Ormuz. Os países “beligerantes” – EUA, Israel e Irã –
foram excluídos da reunião.
Donald Trump solapa suas relações com os aliados da Otan,
com parceiros antes muito próximos como o Reino Unido e a primeira-ministra
italiana, Giorgia Meloni, e com personalidades de grande prestígio mundial,
como Leão XIV, o primeiro papa americano.

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