Documento apresentado pelo PT em seu congresso não faz
jus ao partido real
Não se sabe bem de onde veio a inspiração que animou os
autores
O Partido dos Trabalhadores acaba de realizar seu 8°
Congresso Nacional, no qual aprovou o documento "Construindo o futuro:
manifesto do PT para
seguir transformando o país". Trata-se de peça programática com a ambição
de apresentar um mapa das mudanças que a maior agremiação de esquerda propõe ao
Brasil. Em princípio, deveria também nortear as campanhas eleitorais deste ano.
O texto tem três partes. A primeira é uma diatribe contra o
capitalismo neoliberal. Os quatro longos parágrafos iniciais descrevem os
malefícios que o sistema produziu. Mas não é clara a alternativa proposta ao
capitalismo destrutivo. Seria alguma forma de capitalismo domesticado, à
semelhança do praticado pelas social-democracias? Ou um tipo ainda desconhecido
de socialismo compatível com a democracia e as liberdades individuais?
A segunda parte contém uma defesa
pormenorizada do muito que o governo Lula efetivamente
fez para recuperar o país do descalabro promovido durante a gestão da extrema
direita —no plano da economia; da redistribuição; do meio ambiente; da cultura
e das políticas sociais.
Finalmente, vêm as propostas, mais
nacional-desenvolvimentistas do que social-reformadoras. O documento fala em
"diretrizes de um novo projeto de desenvolvimento nacional",
assentado em três eixos: a reconstrução do Estado como indutor do desenvolvimento;
a aceleração do crescimento econômico com redistribuição de renda, riqueza e
patrimônio; a transição produtiva, tecnológica e ambiental guiada pelo
princípio da soberania nacional. A seguir, aparecem enfileiradas, sem distinção
de importância, sete reformas: política e eleitoral; tributária; tecnológica;
do Judiciário; administrativa; agrária; e da comunicação. Chama a atenção a
falta de referência ao tema da proteção social, como se não houvessem mudanças
a fazer na saúde,
na educação,
na assistência social, na previdência ou na legislação trabalhista.
Não se sabe bem de onde veio a inspiração que animou os
autores. Não há de ter sido da consulta às ruas, nas quais pesquisas de opinião
têm mostrado reiteradamente que a segurança pública —ignorada no texto— e o
atendimento à saúde, seguidos do custo de vida, constituem as principais
preocupações da população. Tampouco parece vir do contato com a vida real dos
pobres nas cidades, com suas aspirações de estabilidade e ascensão social, sua
preocupação com a educação dos filhos e com protegê-los da vizinhança cotidiana
do crime.
Por fim, mas não menos importante, parece não ter vindo da
enorme experiência acumulada pelos bons quadros do partido, formados em quase
18 anos no exercício da Presidência, governos estaduais, prefeituras e casas
legislativas. Essa vivência poderia acrescer sensibilidade para as questões de
eficiência da máquina pública, de restrições fiscais, de melhoria da qualidade
e da implementação das políticas governamentais.
Em "Construindo o futuro" há pouco que oriente um
partido de esquerda democrático, sintonizado com os desafios presentes e capaz
de oferecer uma visão progressista de futuro.
De fato, a imagem projetada pelo documento não faz jus ao
partido real, aos milhares de quadros que formou e aos governos que encabeçou
—e encabeça.

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