quarta-feira, 29 de abril de 2026

PARA LULA, É 'VENCER OU VENCER' COM MESSIAS

Vera Magalhães, O Globo

Aprovação no Senado passará à opinião pública a imagem de um governo que ainda mantém controle de sua articulação política

Lula enfrenta nesta quarta-feira um dos testes mais importantes de seu terceiro mandato. Uma derrota no Senado na votação da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) o fragilizaria de maneira até aqui inédita perante o Congresso e um eleitorado já bastante ressabiado. Para o petista, hoje é vencer ou vencer.

As contas pré-sabatina e votação no plenário mostram que será “com emoção”, mas a maioria dos prognósticos aponta uma vitória por pequena margem do ex-advogado-geral da União, cuja indicação foi feita no ano passado, segurada, confirmada neste ano e contrariou frontalmente o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A votação acontece num momento de extrema tensão entre STF e Senado, com ecos na pré-campanha eleitoral e endosso de parcela crescente da sociedade, medida por pesquisas. Messias dificilmente escapará de uma inquirição dura, que refletirá esse cenário. Seu desafio será responder de forma a não se queimar com os dez ministros da Corte nem contrariar seus “eleitores” em potencial na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e no plenário — lembrando que as duas rodadas de votação são secretas, para aumentar o suspense.

Líderes experimentados da Casa apostam que ele terá entre 43 e 47 votos no plenário. Caso se confirme a aposta, Messias se juntará a outros indicados recentes que chegaram ao STF com placares modestos. Flávio Dino e André Mendonça obtiveram 47 votos “sim”, o menor número até aqui. Paulo Gonet passou ainda mais sufoco, recebendo 45 endossos à recondução para a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Essa incerteza, incomum em tempos não tão remotos, é reflexo do papel que tanto STF quanto PGR assumiram na História recente do país, pelo menos do mensalão para cá, com contornos bem mais dramáticos depois da Operação Lava-Jato e do governo Bolsonaro. Foi nesse último período que, ao se colocar como anteparo a ameaças democráticas, o Supremo passou a ser visto pela direita e pelo eleitorado que se identifica com ela como “aliado” do governo.

O perfil dos indicados por Lula nesta sua terceira passagem pela Presidência corrobora a percepção. Foram dois ministros de seu governo e seu advogado pessoal os eleitos pelo petista, escaldado por inúmeros casos de mandatos anteriores em que nomeados por ele votaram contra o governo, contra o PT e contra ele próprio. A preferência por “bolas de segurança” levou Lula a ignorar a preferência manifestada por Alcolumbre, pelo aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Essa aposta de risco será testada hoje.

A aprovação, ainda que sem aclamação, dará a Lula uma “maioria” confortável no STF para um eventual quarto mandato e passará à opinião pública a imagem de um governo que ainda mantém o controle, mesmo que sem muita margem, da articulação política com o Parlamento.

Uma eventual e menos provável derrota teria consequências para muito além da composição do Supremo. Seria a cristalização da imagem de isolamento político e institucional, combustível para adversários e fator de contaminação do ambiente eleitoral. Em Brasília, derrotas desse tipo raramente ficam circunscritas ao episódio. Reverberam na percepção de força do governo, atingem expectativas econômicas e acabam, cedo ou tarde, aparecendo nas pesquisas de intenção de voto.

Lula, portanto, não disputa apenas uma indicação. Testa, ao mesmo tempo, sua capacidade de manter pontes com o Judiciário, de resistir à pressão de um campo político que elegeu o STF como inimigo e de demonstrar que ainda consegue transformar a prerrogativa formal conferida pela Constituição de nomear integrantes da mais alta Corte de Justiça em poder efetivo. Num mandato marcado por crises constantes e muito pouca margem de manobra política de Lula, a votação de Messias funciona como um momento em que todas as limitações são postas à prova simultaneamente.

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