quarta-feira, 15 de abril de 2026

ROLETA-RUSSA EM SP

Editorial, O Estado de S. Paulo

Despreparo de alguns policiais transforma uma simples caminhada noturna em aposta de vida ou morte

A morte da auxiliar de serviços gerais Thawanna da Silva Salmázio, baleada no peito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira durante uma ronda noturna em Cidade Tiradentes, zona leste da capital paulista, mostra que, a depender do bairro, sair às ruas é apostar numa loteria macabra na qual a vida humana tem pouco ou nenhum valor. A maturidade e o nível de treinamento dos policiais militares envolvidos em dada abordagem irão determinar se um cidadão vai viver ou morrer após cruzar seu caminho.

As imagens da ocorrência, registradas pela câmera corporal do soldado Weden Silva Soares, parceiro de Yasmin no patrulhamento, são perturbadoras não só pelo desfecho trágico. Elas revelam uma escalada de insensatez que qualquer agente mais bem treinado teria evitado.

Tudo começou com o marido de Thawanna sendo atingido pelo retrovisor da viatura policial. O casal reclamou. Os policiais deram ré, mas, em vez de se desculparem e seguirem adiante, iniciaram a abordagem com agressividade, questionando por que o casal estava na rua naquele horário. Em seguida, a soldado Yasmin sai do carro e a discussão escala sem controle. Um tiro é disparado em questão de poucos minutos, como se fosse um desfecho trivial para aquela altercação.

A reação do soldado Weden à atitude da colega sintetiza o amadorismo que resultou em tragédia. “Por que você atirou nela?”, questiona. De fato, não havia qualquer razão para o uso da força letal. A soldado Yasmin alega que a vítima teria dado um tapa em seu rosto. Não há registro dessa suposta agressão. Mas, ainda que tenha havido, é evidente o descompasso entre o que se espera de um policial militar envolvido numa situação dessas e o comportamento irresponsável, para dizer o mínimo, da soldado de dedo leve no gatilho.

O uso de força letal por agentes do Estado é regido, fundamentalmente, pelo princípio do uso progressivo. Um tapa, supondo que tenha havido, não autoriza um tiro, mas sim a prisão do agressor, se tanto. Espera-se que policiais militares sejam capazes de suportar a tensão das ruas e responder a provocações sem perder o controle. É para isso, afinal, que são treinados – ou deveriam ser.

Esse caso expôs falhas óbvias de recrutamento, treinamento e, sobretudo, padronização de condutas na Polícia Militar (PM) de São Paulo. É inaceitável que o comportamento de um policial militar varie a ponto de abordagens semelhantes em regiões distintas levarem a desfechos radicalmente opostos. O policiamento ostensivo deve ser padronizado e proporcional. A autoridade policial se exerce com firmeza, mas também com técnica e respeito aos cidadãos.

O preço do despreparo de alguns policiais militares costuma ser mais caro nas periferias da cidade, onde as abordagens da PM não raro são mais conflitivas. Nas regiões mais afastadas do centro expandido, os cidadãos nunca sabem se serão tratados como tais ou como suspeitos a priori. No fundo, talvez saibam.

Sem confiança social na PM, não há segurança pública, há medo. E, quando um cidadão passa a sentir medo ao avistar uma viatura policial, a instituição deixa de representar proteção e passa a ser vista como ameaça. Esse círculo vicioso só produz desordem e morte.

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