Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha,
"esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela
Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas
É lastimável que pré-candidatos à Presidência da República
apresentem como cartão de visitas a promessa de anistia ampla, geral e
irrestrita a golpistas condenados. Postulantes ao comando do país não têm pudor
de enfatizar que o principal contemplado com o perdão será o chefe da
organização criminosa que atentou contra a democracia. Chefe este, diga-se, que
desfruta de prisão domiciliar humanitária — benefício possível apenas no Estado
de Direito que ele tentou derrubar.
O argumento acintoso desses pré-candidatos é que a
pacificação do país passa pela anistia. Livrar da cadeia os que planejaram
assassinato de autoridades? Os que depredaram os prédios dos Três Poderes? Os
que bradaram por intervenção militar e queriam mergulhar o Brasil novamente num
período de trevas?
Lembremos: ainda temos uma imensa dívida
com nossa história. Nunca houve responsabilização pelas barbáries cometidas na
ditadura militar. Quem perseguiu, reprimiu, torturou, estuprou e assassinou
acabou perdoado. Mas até hoje há vítimas desaparecidas. Até hoje, há famílias
sem respostas. E lá se vão 62 anos — completados na última terça-feira — desde
o início daqueles tempos de terror.
O regime que envergonha este país foi tão brutal que não
poupou nem crianças. A vítima mais jovem da ditadura, Carlos Alexandre, tinha 1
ano e oito meses, em 1974, quando foi torturado por agentes da repressão. Ele
nunca se recuperou do trauma. Em 2013, tirou a própria vida.
A impunidade da corja que afligiu o Brasil durante mais de
duas décadas instigou a investida que vimos recentemente. Os golpistas de agora
só não alcançaram êxito porque as instituições funcionaram. E funcionaram tão
bem que vimos, pela primeira vez, um ex-presidente ser condenado e ir para a
cadeia por tentar derrubar a democracia, vimos punição de militares de alta
patente, vimos o bando de radicais antipatriotas do 8 de Janeiro ser
trancafiado. Um trabalho inestimável do Supremo Tribunal Federal. A Corte
mostrou como golpistas devem ser tratados.
Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha,
"esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela
Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas. É permitir que o
autoritarismo coloque novamente suas garras para fora, para tolher liberdades,
calar vozes, assassinar. Os golpistas têm de cumprir suas sentenças, como
criminosos que são. Sem redução de pena, sem anistia.

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