Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a
mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’
Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou,
por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte
e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida
(entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de
convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal
inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada
da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a
medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.
A sessão plenária de seis horas foi
salpicada de alta literatura — comme il faut tratando-se de
debates parlamentares na França. E coube ao deputado Jérémie Patrier-Leitus, do
partido de centro-direita Horizons, o troféu de melhor citação. O parlamentar
recorreu a uma carta, certamente a mais célebre do romancista Victor Hugo, escrita
mais de 150 anos atrás. A carta é tão primorosa que merece ser contextualizada
e transcrita aqui quase na íntegra, em tradução livre. Afinal de contas, nunca
é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de “Os
miseráveis” e do político que escreveu o “Discurso sobre a miséria”.
Corria o ano de 1861 e os governos imperiais do Reino Unido
e da França haviam lançado uma segunda expedição contra a China (a Segunda
Guerra do Ópio). Um oficial britânico chamado Henry Butler, interessado em
explorar o prestígio de Victor Hugo, enviou-lhe uma missiva sugerindo o apoio
do escritor à empreitada colonial. Àquela altura, um dos bens culturais mais
icônicos da humanidade, o milenar Palácio de Verão imperial chinês (ou Palácio
da Harmonia Preservada), já havia sido saqueado e virado cinzas nas mãos dos
expedicionários.
A resposta de Victor Hugo:
“Ao Capitão Butler / Hauteville House / 25 de novembro de
1861
Uma vez que deseja conhecer minha opinião, ei-la:
Havia, em um canto do mundo, uma maravilha mundial; essa
maravilha chamava-se Palácio de Verão. A arte tem dois princípios: a Ideia, que
produz a arte europeia, e a Quimera, que produz a arte oriental. O Palácio de
Verão era, para a arte quimérica, o que o Partenon é para a arte ideal. Ali se
encontrava tudo o que podia ser concebido pela imaginação de um povo quase
sobre-humano. Não era uma obra única, singular, como o Partenon; era como um
imenso exemplar de quimera, se a quimera pudesse ter exemplar.
Imagine uma construção inexprimível, algo semelhante a um
edifício lunar, e terá o Palácio de Verão. Erga um sonho com mármore, jade,
bronze e porcelana; emoldure-o em cedro, recubra-o de pedras preciosas,
revista-o de seda, faça aqui, um santuário; ali, um harém; acolá, uma cidadela;
acrescente nele deuses e monstros; envernize, esmalte, doure, pinte; mande
arquitetos que sejam poetas erguer os mil e um sonhos das Mil e Uma Noites;
acrescente jardins, lagos, águas correntes e espumas, cisnes, íbis, pavões;
imagine uma resplandecente fantasia humana com função de templo e de palácio —
tal era esse edifício.
Foi necessário o lento labor de gerações para criá-lo. Esse
edifício, vasto como uma cidade, fora construído por séculos; e para quem? Para
os povos. Porque a obra do tempo pertence ao homem. Artistas, poetas e
filósofos conheceram o Palácio de Verão; Voltaire fala dele. Falava-se do
Partenon na Grécia, das pirâmides no Egito, do Coliseu
em Roma, de
Notre-Dame em Paris,
do Palácio de Verão no Oriente. Se não o viam, imaginavam-no. Era uma espécie
de prodigioso e desconhecido chef-d’œuvre, entrevisto ao longe,
numa espécie de crepúsculo, como a silhueta da civilização da Ásia no horizonte
da civilização europeia.
E essa maravilha desapareceu.
Um dia, dois bandidos entraram no Palácio de Verão. Um
saqueou; o outro incendiou [...] Mistura-se a esse fato o nome de Elgin, que
inevitavelmente faz lembrar o Partenon. O que se fez ao Partenon, fez-se ao
Palácio de Verão, de forma ainda mais completa e hábil, para que dele nada
restasse. Os tesouros reunidos de todas as nossas catedrais não valeriam esse
formidável e esplêndido museu do Oriente. Ele continha não só obras-primas de
arte, mas uma imensidão de joias. Que feito extraordinário, que presa magnífica!
Um dos dois vencedores encheu os bolsos; quando o outro viu isso, encheu os
cofres. E retornaram à Europa, braço dado, rindo à vontade. Tal é a história
dos dois bandidos.
Nós, europeus, somos os civilizados; os chineses, para nós,
são os bárbaros. Eis o que a civilização fez à barbárie.
Perante a História, um dos dois bandidos se chamará França;
o outro, Inglaterra. Mas eu protesto, e agradeço-lhe por me haver dado ensejo
de fazê-lo! Os crimes dos que governam não são culpa dos que são governados; os
governos são às vezes bandidos, os povos nunca.
O império francês embolsou metade dessa vitória e, hoje, com
uma espécie de ingênua propriedade, exibe a esplêndida bugiganga do Palácio de
Verão. Espero que venha o dia em que a França, liberta e purificada, restitua
esse butim à China espoliada. Por ora, há um roubo e dois ladrões. Tomo nota.
Eis a medida da aprovação que dou à expedição da China.”

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