domingo, 19 de abril de 2026

VICTOR HUGO AJUDA A REFLETIR SOBRE AS ROUBALHEIRAS DE SEMPRE

Dorrit Harazim, O Globo

Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’

Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou, por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida (entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.

A sessão plenária de seis horas foi salpicada de alta literatura — comme il faut tratando-se de debates parlamentares na França. E coube ao deputado Jérémie Patrier-Leitus, do partido de centro-direita Horizons, o troféu de melhor citação. O parlamentar recorreu a uma carta, certamente a mais célebre do romancista Victor Hugo, escrita mais de 150 anos atrás. A carta é tão primorosa que merece ser contextualizada e transcrita aqui quase na íntegra, em tradução livre. Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de “Os miseráveis” e do político que escreveu o “Discurso sobre a miséria”.

Corria o ano de 1861 e os governos imperiais do Reino Unido e da França haviam lançado uma segunda expedição contra a China (a Segunda Guerra do Ópio). Um oficial britânico chamado Henry Butler, interessado em explorar o prestígio de Victor Hugo, enviou-lhe uma missiva sugerindo o apoio do escritor à empreitada colonial. Àquela altura, um dos bens culturais mais icônicos da humanidade, o milenar Palácio de Verão imperial chinês (ou Palácio da Harmonia Preservada), já havia sido saqueado e virado cinzas nas mãos dos expedicionários.

A resposta de Victor Hugo:

“Ao Capitão Butler / Hauteville House / 25 de novembro de 1861

Uma vez que deseja conhecer minha opinião, ei-la:

Havia, em um canto do mundo, uma maravilha mundial; essa maravilha chamava-se Palácio de Verão. A arte tem dois princípios: a Ideia, que produz a arte europeia, e a Quimera, que produz a arte oriental. O Palácio de Verão era, para a arte quimérica, o que o Partenon é para a arte ideal. Ali se encontrava tudo o que podia ser concebido pela imaginação de um povo quase sobre-humano. Não era uma obra única, singular, como o Partenon; era como um imenso exemplar de quimera, se a quimera pudesse ter exemplar.

Imagine uma construção inexprimível, algo semelhante a um edifício lunar, e terá o Palácio de Verão. Erga um sonho com mármore, jade, bronze e porcelana; emoldure-o em cedro, recubra-o de pedras preciosas, revista-o de seda, faça aqui, um santuário; ali, um harém; acolá, uma cidadela; acrescente nele deuses e monstros; envernize, esmalte, doure, pinte; mande arquitetos que sejam poetas erguer os mil e um sonhos das Mil e Uma Noites; acrescente jardins, lagos, águas correntes e espumas, cisnes, íbis, pavões; imagine uma resplandecente fantasia humana com função de templo e de palácio — tal era esse edifício.

Foi necessário o lento labor de gerações para criá-lo. Esse edifício, vasto como uma cidade, fora construído por séculos; e para quem? Para os povos. Porque a obra do tempo pertence ao homem. Artistas, poetas e filósofos conheceram o Palácio de Verão; Voltaire fala dele. Falava-se do Partenon na Grécia, das pirâmides no Egito, do Coliseu em Roma, de Notre-Dame em Paris, do Palácio de Verão no Oriente. Se não o viam, imaginavam-no. Era uma espécie de prodigioso e desconhecido chef-d’œuvre, entrevisto ao longe, numa espécie de crepúsculo, como a silhueta da civilização da Ásia no horizonte da civilização europeia.

E essa maravilha desapareceu.

Um dia, dois bandidos entraram no Palácio de Verão. Um saqueou; o outro incendiou [...] Mistura-se a esse fato o nome de Elgin, que inevitavelmente faz lembrar o Partenon. O que se fez ao Partenon, fez-se ao Palácio de Verão, de forma ainda mais completa e hábil, para que dele nada restasse. Os tesouros reunidos de todas as nossas catedrais não valeriam esse formidável e esplêndido museu do Oriente. Ele continha não só obras-primas de arte, mas uma imensidão de joias. Que feito extraordinário, que presa magnífica! Um dos dois vencedores encheu os bolsos; quando o outro viu isso, encheu os cofres. E retornaram à Europa, braço dado, rindo à vontade. Tal é a história dos dois bandidos.

Nós, europeus, somos os civilizados; os chineses, para nós, são os bárbaros. Eis o que a civilização fez à barbárie.

Perante a História, um dos dois bandidos se chamará França; o outro, Inglaterra. Mas eu protesto, e agradeço-lhe por me haver dado ensejo de fazê-lo! Os crimes dos que governam não são culpa dos que são governados; os governos são às vezes bandidos, os povos nunca.

O império francês embolsou metade dessa vitória e, hoje, com uma espécie de ingênua propriedade, exibe a esplêndida bugiganga do Palácio de Verão. Espero que venha o dia em que a França, liberta e purificada, restitua esse butim à China espoliada. Por ora, há um roubo e dois ladrões. Tomo nota.

Eis a medida da aprovação que dou à expedição da China.”

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