Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista,
uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da
ampla coalizão democrática
Um mergulho no imaginário das esquerdas, em plena
modernidade, permite identificar a questão recorrente de alianças e frentes.
Com quais aliados contar para reformar o capitalismo, segundo os socialistas,
ou para derrubá-lo, segundo os comunistas? A relação entre esses dois
irmãos-inimigos atravessou boa parte do século passado, apontando o caminho
seja de derrotas fragorosas, seja de momentos de resistência e avanço.
O feroz antagonismo entre os irmãos assumiu tons retóricos
contundentes. Por um lado, os comunistas eram acusados de ser adeptos de
soluções violentas, inviáveis no Ocidente político; os socialistas, por seu
turno, não passariam de traidores da revolução, quando não de fraudulenta ala
“social” do fascismo.
Esse confronto, que facilitaria a ascensão
do fascismo e do nazismo, só teria um primeiro remédio com as frentes populares
dos anos 30. É que, além de unificar os dois ramos do movimento operário, elas
se abriram a outras tradições incontornáveis, como o catolicismo político, o
socialismo liberal e o republicanismo. Quanto mais amplas, maior o potencial
democrático, prefigurando as forças aliadas vitoriosas na guerra que se
seguiria.
Situações desse tipo não se limitavam a uma parte do mundo.
Sob outras formas, mostravam-se também num Brasil em processo de modernização.
Os anos 30, entre nós, viram o confronto entre integralistas e comunistas – sob
o olhar implacável de Vargas. Inserida no amplo guarda-chuva da Aliança
Nacional Libertadora, a esquerda comunista contribuiria para “o maior movimento
popular do País, o mais charmoso e encantador”, segundo Ruy Castro, cuidadoso
biógrafo da vida cotidiana de um Brasil em mutação (Trincheira tropical,
Companhia das Letras). Encerrada em si mesma, tomando a nuvem por Juno, aquela
esquerda se perderia numa aventura militarista nascida para fracassar.
Três décadas depois, a modernização inconclusa ganharia
impulso com uma segunda ditadura, não casualmente chamada de “o Estado Novo da
União Democrática Nacional (UDN)”. Liberais e democratas, até alguns que
apoiaram o regime no momento inicial, coerentemente se afastaram, fiéis ao seu
compromisso doutrinário.
Entre os opositores mais declarados, duramente perseguidos,
se renovaria a estratégia de frente – o imaginário dos anos 30 era,
efetivamente, duro de morrer. E os comunistas do Partido Comunista
Brasileiro (PCB), talvez marcados a ferro e fogo pela memória do putsch de
1935, logo formularam a ideia de uma frente ampla, pacífica e democrática. O
regime haveria de ser derrotado pela política, não pelas miragens da guerrilha
urbana ou da guerra popular prolongada.
A formulação era exata, como foi comprovado pela tortuosa
marcha dos fatos, mas a força que a apresentara vivia um declínio irreversível.
Havia sabedoria na “moderação na adversidade”, bem como na convicção de que
buscar o centro político não implicava fazer a política de um centro sem alma.
A ação prática era a mais adequada, mas tinha como limite a visão de mundo
própria de quem nascera sob o signo da revolução dos sovietes e dele não se
libertara. Ficou, no entanto, uma semente frágil – a ideia de que a democracia
“burguesa” devia perder de vez o adjetivo desabonador e, ao contrário,
afirmarse como “valor universal” ou “permanente”.
Quase quatro décadas à frente, a estrutura do mundo – e do
nosso país – tomou rumos inesperados, eis que a História costuma ser dama
inconstante. Vivemos agora no coração da pós-modernidade ou da
hipermodernidade. Discussão conceitual à parte, o fato é que entre os
especialistas, com raras exceções, generalizou-se o tema da “recessão
democrática” e da corrosão interna de algumas das mais tradicionais sociedades
abertas.
No nosso canto do mapa, é certo que, em 2018, o Brasil
“dobrou à direita”, para usar a expressão de Jairo Nicolau, e ainda hoje se vê
às voltas não com uma direita democrática – fundamental para a normal
alternância de forças no poder –, mas com outra que se convencionou chamar de
“iliberal” ou “antiliberal”.
Essa qualificação revela que o alvo bem nítido dos distintos
autoritarismos contemporâneos são os variados mecanismos propriamente liberais
que limitam a concentração autocrática do mando. A soberania popular,
toscamente invocada (“só o povo é supremo”), encarna-se contraditoriamente na
figura do líder com permissão para atropelar todas as regras (“eu autorizo”),
inclusive procedimentos eleitorais. O demos, aqui, é massa de indivíduos
controlados pelo alto – uma circunstância que faz lembrar os acontecimentos de
um século atrás.
Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista,
uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da
ampla coalizão democrática. Para decifrá-lo, deve ter a ambição de assimilar
criticamente os pontos fortes do liberalismo. Fincar pé nas próprias verdades e
fechar-se ao debate/embate com essa e outras correntes significa comportar-se
como alma bela. Mais do que isso, significa desistir da reconstrução de um
horizonte comum, composto de luta e conciliação, afirmação de interesses
particulares e preocupação com a casa de todos.
*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no
Brasil

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