Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com
opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras
eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era
mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu
eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes,
fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas.
Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase
meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu
algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube
encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas
mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais
intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os
sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular
e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período
democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre
afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova
York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram
as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na
realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos.
Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa
esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente
não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale,
pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados
em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das
mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do
governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do
mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um
ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais
recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de
gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha
para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do
populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu
discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será
essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de
o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas
medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer
novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.
Artigo publicado no jornal O Globo em 19 / 05 / 2026

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