Preços comem os salários nos EUA e ameaçam maioria dos
republicanos no Congresso
Preferências políticas por vezes delirantes afetam modo
de enxergar a situação da economia
O salário médio nos Estados
Unidos perdeu para a inflação nos
últimos 12 meses, o que não acontecia desde meados de 2023. Quer dizer, o poder
de compra diminuiu.
Em novembro, haverá eleição nos EUA. Em outubro, no Brasil.
Os preços aumentam também por aqui. O salário médio, no entanto, cresce 5% mais
do que a inflação, ao ano. Mesmo assim, a situação de Lula 4 é
periclitante. Está evidente desde o segundo ano de Lula 3 que as melhoras
econômicas não influenciam o voto de muita gente ou são relativas.
"Polarização" ajuda a explicar
insatisfações e preferências, assim como regionalismos, mudança demográfica e
uma desconfiança grande do Estado, do "sistema" e dos impostos. Aliás,
em canetada eleitoreira vexaminosa, Lula zerou a "taxa das
blusinhas".
Não ajuda também a persistência de problemas que surgiram
ainda na epidemia, como nível de preços alto ou aumento do crédito bancário em
relação à renda. Mas parece haver mais. Para citar um exemplo anedótico do que
são as mentalidades deste mundo, um
detergente é motivo de identificação e combate políticos. Não quer dizer
que salário, preço e lucro não sejam assunto. Quer dizer que o modo de se
enxergar tais coisas está em convulsão.
O prestígio de Donald Trump está
no pior nível desde o início do governo, segundo a média das pesquisas
calculadas pelo Silver Bulletin: 58,1% dos americanos desaprovam o governo. Na
posse, em janeiro de 2024, eram 40%. No que diz respeito a inflação, a
desaprovação é de 67,4%.
Preços parecem ter sido um motivo da derrota do Partido
Democrata para Trump em 2024. Ainda em meados de 2023 os salários perdiam da
inflação. A amargura durou até a eleição. Em 2024, a confiança na economia não
era tão baixa desde 1961, com exceção de 2022, ano ainda desgraçado pela Covid
(trata-se aqui do índice anual de confiança do consumidor da Universidade de
Michigan). Esses números, porém, ainda não explicavam grande coisa.
Para 39% dos americanos, a vida estava então melhor do que
em 2020, segundo pesquisa Gallup feita mês e meio antes daquela eleição. Entre
os democratas, a vida estava melhor para 72%. Entre os republicanos, para 7%.
Entre os minoritários independentes, para 35%.
No Brasil também é assim. A adesão a Lula ou a Bolsonaro em
parte define a opinião sobre a situação econômica, e não o contrário, para
ficar em apenas uma complicação.
Parecia que os americanos de 2024 viviam em situações
socioeconômicas muito diferentes —era verdade apenas em parte. Em parte, viviam
em universos diferentes, com prioridades programáticas divergentes. Como no
Brasil.
As ideias podem ser diferentes também sobre o que se chama
de "costumes", segurança, benefícios sociais etc. em combinações que
não se alinham por "esquerda" ou "direita". Mais do que
isso, é possível que os eleitores prefiram "detergentes" diferentes,
por assim dizer. A politização digital de ninharias da vida cotidiana, como no
caso da adesão sectária ao "partido do detergente", indica que a
formação de preferências pode ser delirante.
Isto posto, sim, inflação faz diferença. Ou melhor, como se
escreve nestas colunas faz um par de anos, um nível de preços alto desde a
epidemia, em
particular de alimentos, não foi compensado por alta suficiente de
salários. Nesta situação, inflação adicional irrita ainda mais —e vem um tanto
mais de carestia até o final do ano, com subsídio para combustível, com tudo.

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