Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desmoronam
a fantasia de cruzada moral, ao revelar vínculos do clã Bolsonaro com o
banqueiro mais tóxico do Brasil
Em seus textos, o filósofo francês Clément Rosset
costumava ressaltar o aspecto particularmente cruel da realidade. Cabe ao
leitor e leitora ter em mente que Rosset fazia isso mirando não o sentido
sádico ou moral da palavra “cruel”, mas o aspecto bruto e incontornável que a
própria ideia de realidade carrega consigo.
Imagine algo que simplesmente “é”; algo que,
independentemente da nossa vontade, jamais poderá ser outra coisa que si mesmo,
sem sentido oculto, sem justiça superior ou qualquer possibilidade de
compensação mística.
Essa é a realidade em seu aspecto mais cru – cruel. É
aterrorizante pensar nisso, especialmente porque a realidade vive à espreita,
sempre em busca de uma oportunidade para se fazer presente em nossas vidas,
ameaçando nossas fantasias reconfortantes, nossos mitos apaziguadores.
Ameaçando as casinhas imaginárias que criamos para nos proteger, justamente,
dos fatos que insistem em continuamente desabar sobre nossas cabeças.
E por isso mesmo, quanto mais duros são os fatos, quanto
maior a sua “crueldade”, maiores serão os esforços imaginativos e fabulatórios
necessários para contê-los, para lhes emprestar algum sentido ou até mesmo
para, no limite, negá-los.
Tarefa hercúlea para impedir que a verdade atinja o
eleitorado
E é exatamente isso que observamos após a divulgação
dos áudios que mostram que, a despeito do que dizia Flávio
Bolsonaro, ele e o banqueiro Daniel Vorcaro não apenas se conheciam, como
compartilhavam intimidades, com direito a declarações de lealdade, e – digamos
assim para evitar processos – “interesses de investimento”.
Desde a divulgação dos áudios, a direita e a extrema direita
se lançaram numa tarefa hercúlea para criar um verdadeiro castelo
fantasmagórico que, imaginam desesperadamente, seja capaz de impedir que a crua
(cruel) verdade caia sobre o eleitorado.
E, até o momento, um castelo de areia literal seria mais
eficaz nessa tarefa.
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Pois o fato, além de grave (cruel) em si mesmo, não
surge de forma isolada; soma-se
a outros que, no passado, foram incapazes de transpor os muros da
fantasia direitista. Mas que agora, reforçados pela
intimidade de Flávio e Vorcaro, ganham novo fôlego e ameaçam o novo
projeto de poder da família Bolsonaro.
Suspeitas que há muito orbitavam
o próprio filme “Dark Horse”. A começar pelo orçamento da produção: 24
milhões de dólares, o que faria dele o filme mais caro da história do cinema
brasileiro.
Um número ainda mais estranho diante do que foi apresentado até agora: apesar
do elenco internacional e da campanha grandiloquente, nada visto até o momento
parece justificar um investimento dessa magnitude.
Muito pelo contrário. As filmagens no Brasil foram atravessadas
por denúncias de atrasos e calotes, cachês muito abaixo do padrão de
mercado, comida estragada e até relatos de agressão física. O próprio Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo
acionou o Ministério do Trabalho diante da quantidade de denúncias acumuladas.
E o resultado de toda essa epopeia milionária?
Até agora, um “teaser-trailer”
composto basicamente por imagens de bastidores e takes inacabados, todos com
uma inegável aparência amadora, e embalados ao som de Survivor, do grupo
Destiny’s Child. Há, porém, um pequeno e delicioso detalhe final: a música
teria sido utilizada sem autorização. Representantes
jurídicos da cantora Beyoncé chegaram a tomar medidas legais para
retirar o material do ar.
O que nos leva a uma pergunta crucial: como uma produção que
afirma ter mobilizado milhares de dólares de empresários aparentemente não
conseguiu pagar nem pelos direitos da própria trilha sonora? Estranho, no
mínimo.
Tão estranho quanto o fato de uma ONG
presidida pela produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama,
ter recebido mais de 100 milhões de reais da gestão de Ricardo Nunes para
instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo, conforme
denúncia do Intercept. E tudo isso apesar de a entidade não possuir histórico
relevante na área de telecomunicações e dos pagamentos terem ocorrido antes
mesmo da entrega final do serviço.
E a história não termina aí. A mesma Karina também aparece
ligada a outra ONG que teria recebido ao menos 2,6 milhões de reais em emendas
parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos
Pollon.
Como se denúncias dessa magnitude já não fossem
suficientemente graves por conta própria, soma-se agora uma acusação ainda mais
explosiva: a de que o filme teria sido financiado com dinheiro ligado ao
banqueiro Daniel Vorcaro.
Um dinheiro que, ao contrário da narrativa repetida por Flávio Bolsonaro e seus
aliados, não seria simplesmente “financiamento privado”, mas recursos que,
segundo investigações da própria Polícia Federal, teriam origem em operações
financeiras fraudulentas.
Propaganda política
E aqui pesa um elemento ainda mais inquietante: “Dark
Horse”, como sugerem os trechos do roteiro e as imagens vazadas, é antes de
tudo uma propaganda política. Uma obra inteiramente comprometida com a
reescrita do passado e a reorganização da memória histórica para transformar
Jair Bolsonaro e seus aliados em figuras não apenas heroicas, mas quase
messiânicas. Enquanto isso, do outro lado, seus adversários políticos surgem
reduzidos a caricaturas pueris: demônios irascíveis, “marxistas drogados”,
criminosos e terroristas.
Menos um filme do que uma cosmologia moral rudimentar, onde
a política abandona qualquer pretensão de realidade para assumir a forma de
guerra santa audiovisual.
E talvez seja justamente aqui que a realidade, em seu
aspecto mais cruel, volte a bater à porta. Pois toda essa mitologia construída
por “Dark Horse” – esse esforço quase litúrgico para transformar Jair Bolsonaro
e seus aliados em paladinos incorruptíveis de uma cruzada moral contra o
“sistema” – começa a desmoronar no instante em que o dinheiro entra em
cena.
O dinheiro é a própria realidade.
E quando olhamos para ela, percebemos o que existe por trás
da fantasia, da estética messiânica, dos discursos sobre patriotismo, Deus,
família e liberdade. Aquilo que, justamente, o clã Bolsonaro jurou destruir:
relações promíscuas com empresários, banqueiros e operadores políticos,
esquemas nebulosos, verbas públicas suspeitas e figuras constantemente
orbitadas por denúncias graves.
E talvez esse fosse o verdadeiro ponto de Rosset: a
realidade é cruel porque ela sempre retorna.
Não importa quantos filmes sejam produzidos, quantos
mártires sejam fabricados ou quantas guerras morais sejam encenadas. Em algum
momento o real se faz presente. O dinheiro aparece. Os contratos aparecem. Os
áudios aparecem. Os banqueiros aparecem.

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