Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo
radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04
Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de
Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão
Flávio B. deve
estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates,
malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh,
na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse"
é assinado.
O título alude àqueles tempos por repetir o de livro
sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no
Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de
governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu
filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz
também jus ao apelido juvenil: Cavalão.
É um filme descomplicado, mas faz vários
serviços. Propagandeia um liberalismo radical. Jair-ator pragueja contra
"socialistas, trabalhistas, comunistas": "Vou deixar você em paz
—e proteger você— para que o que você construiu não seja roubado".
Programa anti-Estado, prática patrimonialista: "Dark Horse" veio do
mesmo mundo do qual saíram as festas de Daniel
Vorcaro, regadas a prosecco e recursos públicos. Ali, políticos
bolsonaristas e empresários fizeram amizades e negócios. Por que não um filme?
O enredo é nacionalista, mas o "a Amazônia é
nossa" vem redigido em inglês e por estrangeiros. A conjuntura nacional se
reduz à meia dúzia de eventos na abertura: fim da ditadura, "levantes
comunistas/socialistas", eleição e prisão de Lula, derrota na
Copa do Mundo por 7 a 1, eleição de Bolsonaro.
A política é tripartite: há o "Far Left
Progressives" ("vermelhos"), o "Ruling Party"
(corrupto) e o antissistema. Os "socialistas radicais" aparecem na
tramoia para matar Bolsonaro.
É um filme pró-família, mas família à moda do Jair.
Flashbacks constroem sua persona de "alto e bonito", sedutor e
desbocado. Sua origem é clã de machos. Desenha-se um capitão que prende
traficante (e minimiza-se sua ida para a reserva do Exército). Depois, vem o
casamento romântico com a "linda" Michelle e se materializa o pai
rigoroso, mas amoroso, de Laura e três zeros (esqueceram o 04!).
Bolsonaro é um escolhido de Deus. Além das preces do casal e
de seguidores, há uma senhora humilde que provê pílulas salvadoras. Assim se
explica o "milagre" da sobrevivência pós-atentado. Nas paredes do
hospital estão "Pietà" e "A Ressurreição de Lázaro". No
hospital, Bolsonaro, como Lázaro, se levanta e anda até os braços do povo,
enquanto os planejadores do atentado são mortos.
É uma drama de inadvertidos efeitos cômicos. Há a peruca
fora de lugar do protagonista, o "papai" de Carluxo salpicado no
enredo e uma mescla de português e espanhol: a milagreira se chama Dolores, o
bandido toma "cerveza" e, em vez do "seu Jair" da
averiguadora da tornozeleira, temos o "senhor Bolsonaro".
A narrativa embaralha fatos e ficções. Amaina, sem negar, o
politicamente incorreto, como o ataque a Maria do Rosário. O preconceito some
na cordialidade —amigo de um negro, simpático com enfermeiro gay.
A fabulação cresce ao longo do roteiro, desclassificando os
inimigos: a imprensa é inescrupulosa e esquerdista, o "Ruling Party"
é quem arma complôs para matar o Mito. Tecem-se suspeitas sobre o resultado
eleitoral de 2022. Um possível ministro do STF calvo e um empresário-traficante
(o mesmo preso pelo capitão) mancomunam-se. É a apoteose da teoria da
conspiração.
A única referência à tentativa de golpe de Estado são
manifestações pró-Mito "em todo o Brasil, em sua maioria pacíficas".
A sentença do STF condenando Bolsonaro vem no final. Não se espere mais que
isso sobre o 8 de Janeiro, nada de oração para pneu nem patriota do caminhão.
"Dark Horse" é maniqueísta como o bolsonarismo: há
bons e maus, fortes e fracos, nós e eles. Bolsonaro é pintado como vítima do
"sistema" à espera de um novo milagre. Mas quem agora precisa dele é
o 01. A santa Dolores não opera livramentos na vida real, e a "linda"
Michelle já encomendou a alma do enteado: "Pergunta
para o Flávio".

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