EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre dinheiro
do “Dark Horse”, revela contrato
O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL
de São Paulo, atuou como produtor-executivo de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair
Bolsonaro, com responsabilidades e poder sobre a gestão financeira do
projeto, segundo um contrato assinado por ele e diálogos obtidos com
exclusividade pelo Intercept Brasil.
Os registros contradizem afirmações feitas por Eduardo
Bolsonaro em uma publicação no Instagram na quinta-feira, 14, sobre
sua relação com o filme e colocam o deputado federal cassado como uma
peça-chave com poder na tomada de decisões, inclusive financeiras, sobre o
filme que conta a história do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Também mostram que Eduardo omitiu sua conexão com a busca de
dinheiro para financiar o filme ao dizer, no post feito no Instagram, que
apenas cedeu seus direitos de imagem e não exerceu qualquer cargo de gestão no
“Dark Horse”.
Um contrato de produção, datado de novembro de 2023 e
assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, traz a
empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora, e
Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, à
frente da produção-executiva, função com poder para lidar diretamente com o
controle de orçamento e gestão financeira de um projeto audiovisual.
Contrato cita que Jair Bolsonaro
cedeu “os direitos de história de vida” para a produção, na época intitulada “O
Capitão do Povo”, e não “Dark Horse”.
Segundo o documento, a produtora e os produtores-executivos
agiriam em conjunto para dedicar-se a atividades de desenvolvimento do projeto,
dentre elas “envolvimento nas considerações estratégicas relacionadas ao
financiamento do filme e preparação de informações e documentação para
investidores e assistência na identificação de recursos de financiamento de
filmes, incluindo créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e
patrocínio”.
O contrato obtido pelo Intercept define uma ampla gama das
funções que Eduardo teria na produção. Junto com os outros produtores, a
empresa GoUp e o deputado federal Mario Frias, ele teria a responsabilidade
sobre as decisões sobre como os recursos seriam captados e gastos. Não há
informação, porém, sobre quem, de fato, executou essas funções.
Contrato
descreve atividades a serem executadas pela produtora e pelos
produtores-executivos do filme.
Enviamos questionamentos para Eduardo Bolsonaro e para o
senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, mas não houve resposta até a
publicação. O espaço segue aberto. A defesa do deputado Mario Frias
informou que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da
produção do filme Dark Horse” e “nunca recebeu qualquer quantia do fundo de
investimento cujo produto privado final é o filme”.
A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro disse que não iria se
manifestar sobre o tema. A defesa de Jair Bolsonaro disse ao Intercept que ele
não pode se manifestar porque está preso – e destacou que não tinha acesso ao
ex-presidente porque as visitas dos advogados são restritas.
Uma troca de mensagens entre o empresário Thiago Miranda,
fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Daniel Vorcaro de 21 de março de 2025
destaca o papel de articulador financeiro exercido por Eduardo na produção do
filme.
Miranda, que teve papel de intermediário entre Vorcaro, a família Bolsonaro e o deputado Mario Frias em tratativas sobre o filme, encaminha para o banqueiro uma captura de tela de uma mensagem que Eduardo o enviou e diz: “Já estou fazendo o aditivo da troca da empresa e preciso de um direcionamento seu para seguir.”
Na mensagem de Eduardo a Miranda, o deputado federal cassado
diz: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é
tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande
orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário
fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.”
Em seguida, de acordo com a mensagem obtida pelo Intercept,
Eduardo explica como seria a melhor forma de enviar o dinheiro: “Solução:
enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e
etc. Será que conseguimos?”.
Embora não seja possível precisar a data que Eduardo enviou
a mensagem a Miranda, o encaminhamento da captura de tela para Vorcaro indica
que isso ocorreu em março de 2025 – mesmo mês em que Eduardo anunciou que ia se
licenciar do mandato para ficar nos EUA e buscar as “devidas sanções aos violadores de direitos
humanos”.
Enviamos questionamentos para Miranda, que esclareceu que
ele “não desempenhou qualquer função na produção, divulgação, gestão financeira
e estratégia de lançamento do filme Dark Horse” tendo limitado sua participação
a “intermediar o contato entre pretenso investidor e os interessados no
projeto”. Leia a resposta na íntegra.
Outro documento, datado de fevereiro de 2024, mostra ainda
uma minuta de aditivo de contrato para a produção de “Dark Horse” em que
Eduardo é qualificado como financiador do filme e autoriza o uso de recursos
financeiros que ele investir no projeto. Não há confirmação se o aditivo foi,
de fato, assinado.
Aditivo do contrato cita que
Eduardo, que consta como “financiador”, se compromete a “financiar parcialmente
a produção cinematográfica”.
Embora ele diga não ser “dono do filme”, o contrato – datado
de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30
de janeiro de 2024 – designa explicitamente Eduardo e Frias como tendo poder de
gestão e decisão sobre a produção, juntamente da GoUp.
A minuta que o designa como financiador da operação também
contradiz sua fala de que ele teria apenas cedido “direitos de imagem”.
Contrato foi
assinado digitalmente e, embora a data conste como 26 de novembro de 2023, a
assinatura de Eduardo Bolsonaro foi formalizada no acordo em 30 de janeiro de
2024.
A GoUp Entertainment é uma empresa sediada na Flórida que
tem como sócios a brasileira Karina Ferreira da Gama e um brasileiro
naturalizado nos Estados Unidos, Michael Brian Davis.
Em dezembro, revelamos como uma organização
não-governamental na qual Karina é sócia, o Instituto Conhecer Brasil, havia
recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um
contrato de Wi-Fi público sem concluir as entregas previstas. Desde março, o
Ministério Público está investigando o contrato.
Nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal
Flávio Dino determinou
a abertura de uma apuração preliminar para apurar se houve
direcionamento de emendas parlamentares para projetos culturais, inclusive o
filme Dark Horse. A TV Globo noticiou na quinta-feira, 14, que o STF tenta,
há mais de um mês, intimar o deputado Mario Frias a prestar informações sobre
“possíveis irregularidades na execução de recursos de emendas” destinados ao
Instituto Conhecer Brasil – o parlamentar e produtor-executivo do filme teria
destinado R$ 2 milhões à ONG.
Enviamos questionamentos para Karina Gama e para seu sócio,
Michael Brian Davis, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue
aberto.
Fundo de advogado de Eduardo recebeu dinheiro de Vorcaro
Na quarta-feira, 13, o Intercept revelou como o senador
Flavio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, irmão de Eduardo, articulou apoio do banqueiro Vorcaro para financiar a produção de
“Dark Horse”, segundo mensagens obtidas com exclusividade.
Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de
dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a
produção, dos quais pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61
milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências —
foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o
projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
A Polícia Federal apura se o dinheiro de Vorcaro para “Dark
Horse” teria custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
No Instagram,
o deputado federal cassado negou ter recebido o dinheiro negociado para o
filme.
O material analisado pelo Intercept indica que ao menos
parte dos valores negociados por Flávio junto a Vorcaro foi para um fundo
controlado por aliados de Eduardo – incluindo Paulo Calixto, o advogado
encarregado de seu processo imigratório nos EUA, conforme apuração da Agência Pública.
Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2
milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos
analisados pelo Intercept indicam que parte do dinheiro negociado com Vorcaro
para o filme foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que
atuava em parceria com empresas do banqueiro, para o fundo Havengate
Development Fund LP, sediado no Texas, nos EUA, e controlado por aliados de
Eduardo.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o
fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas e tem como agente
legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto.
Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à
companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo
endereço comercial em Dallas.
Os documentos desta segunda firma apontam Altieris Santana
como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e
administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado
pelo Havengate.
LEIA TAMBÉM:
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Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134 milhões para bancar
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- ‘Dark
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- O
plano secreto para levar Jair Bolsonaro na mansão de Vorcaro
Em uma das mensagens obtidas pelo Intercept, ao sugerir
alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA, Eduardo Bolsonaro
informa que Altieris Santana estaria disponível para reuniões presenciais
relacionadas à operação financeira.
Enviamos questionamentos para Altieris Santana e Paulo
Calixto, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue
aberto.
No Instagram, Eduardo disse que “o escritório cuida apenas
da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos” e que foi ele quem
apresentou Calixto a Mario Frias “por saber da sua competência”.
Plano de negócios previa “oportunidade de imigração”
Os documentos mostram que o filme biográfico do
ex-presidente Jair Bolsonaro teve um orçamento total astronômico para os
padrões brasileiros: o valor estimado é entre 23 milhões e 26 milhões de
dólares. A quantia corresponde ao montante negociado por Flávio Bolsonaro com
Vorcaro: 24 milhões de dólares. O custo total é superior ao de várias produções
recentes de Hollywood, inclusive vencedoras do Oscar.
O orçamento do filme prevê, segundo os documentos aos quais o Intercept teve
acesso, que mais de 10,7 milhões de dólares seriam destinados apenas aos custos
“acima da linha”, rubrica que inclui “custos gastos antes da filmagem” – com
direitos do roteiro, salários de atores, diretores, produtores, diretor de
elenco, roteirista e outros envolvidos na direção financeira e criativa de alto
nível do filme.
Ainda segundo os documentos, a estratégia para captar recursos consistia na
oferta de 40 cotas de 500 mil dólares. Ou seja, um total de 20 milhões de
dólares.
Para atrair grandes investidores, o orçamento do filme foi fatiado em pacotes
de investimento VIP com regalias incomuns para o mercado de cinema. Se o
investidor pagasse 1 milhão de dólares, ele comprava uma cadeira no conselho de
produção – com direito a dar pitacos e influenciar as decisões do filme.
O pacote mais caro, e incomum, custava 1,1 milhão de dólares. O grande chamariz
para esse investimento não era o filme, mas sim a promessa explícita de uma
“oportunidade de imigração”. O plano de negócios oferecia o filme como um
atalho para que ricaços comprassem o direito a um Green Card,
garantindo assim o visto de residência permanente nos Estados Unidos.
Plano de negócios previa benefícios
para investidores, incluindo uma “oportunidade de imigração”
A promessa de lucro da produtora era agressiva: os
investidores teriam a devolução de 100% do capital aportado acrescido de um
lucro de 20% sobre o valor investido. O plano de negócios projetava a receita
global do filme em três cenários distintos: um pessimista (de 45 milhões de
dólares), um conservador (70 milhões de dólares) e um otimista (100 milhões).
Após a quitação prioritária do capital e do prêmio de 20% aos financiadores,
todo o lucro líquido restante gerado pela bilheteria e plataformas de streaming seria
dividido meio a meio entre investidores e produtores. Ou seja, Eduardo
Bolsonaro e Mario Frias também lucrariam com o filme.
Você tem mais documentos sobre Eduardo Bolsonaro, Flávio
Bolsonaro, “Dark Horse” ou o Banco Master e quer que o Intercept investigue sua
denúncia? Entre em contato conosco, por e-mail: lais.martins@intercept.com.br, eduardo.goulart@intercept.com.br, leandro.becker@intercept.com.br e paulo.motoryn@intercept.com.br.
Ou, então, por Signal: @laisfm.02, EduardoGoulart.01, @interceptbrasil.44
Atualização: 15 de maio de 2025, 16h49
Texto atualizado para incluir resposta da defesa do ex-presidente Jair
Bolsonaro.
Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa,
Angélica Neiva, Marina Luiza Queiroz, Rafaela Silva e Sarah Germano.



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