Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento
gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário
A palavra hormuz deriva do nome de uma
divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em
tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra
desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra
o Irã, é
difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do
Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como
para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de
usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.
Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo
cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade,
inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para
acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o
atual cabo de guerra.
Em contraposição à vantagem geográfica do
Irã sobre o estreito, os Estados Unidos precisaram alocar 15 mil soldados e um
imponente arsenal bélico para garantir o bloqueio naval do adversário. Dias
atrás, três navios-tanque vazios foram alvejados ao tentar buscar sua carga num
porto iraniano. Segundo divulgação do U.S. Central Command, há atualmente 70
navios petroleiros impedidos de se aproximar ou de zarpar do Irã. Pouca coisa
não é, pois a capacidade de transporte dessa carga interrompida é de mais de
166 milhões de barris, a um prejuízo estimado em US$13 bilhões. Entre ameaças
de extinção do inimigo e estapafúrdias declarações de vitória antecipada, Trump
só não obteve a ansiada autorização da Arábia Saudita e do Kuwait para usar
suas bases e o espaço aéreo aliado caso queira voltar a atacar o Irã de forma
tonitruante.
Ocorre que um bloqueio naval não elimina de imediato o
petróleo já em trânsito, nem o armazenado offshore, ainda menos o transportado
por intermediários. Calejado por meio século de sanções econômicas por parte do
Ocidente, o regime dos aiatolás costurou um razoável sistema de escoadouro por
via terrestre através da Ásia Central. Ainda assim, o fechamento de seus portos
dói. Segundo dados da Secretaria de Energia dos Estados Unidos, o Irã já
reduziu sua produção em cerca de 400 mil barris por dia devido à limitação de
armazenamento e redução forçada no 1,7 milhão de barris por dia que exportava
até o mês passado.
A questão-chave se chama tempo. Os dois lados sabem que não
devem esperar uma vitória rápida e decisiva, mas sim o esgotamento gradual dos
recursos políticos, econômicos ou militares do adversário. Esses recursos são
assimétricos. Em tese, o Irã precisa apenas de um drone militar barato para
fazer explodir um petroleiro “não amigo” no Estreito de Ormuz, estremecendo as
seguradoras mundiais. A vigilância dos Estados Unidos a tantos mares e oceanos
de distância, em contraste, é custosa mesmo para a superpotência mundial.
Recentemente, o topetudo secretário da Defesa, Pete Hegseth,
afirmou perante o Congresso que o custo da Operação Fúria Épica está em US$ 25
bilhões. Ridículo. Esse valor contempla apenas os mais de 2 mil mísseis
Tomahawk e Patriot já despejados sobre o Irã, as missões aéreas dos aviões de
guerra já efetuadas e todo o restante do equipamento militar e humano já
empregado. Em artigo publicado no New York Times, Justin Wolfers, professor de
políticas públicas e economia da Universidade de Michigan, aconselha os
americanos a olhar para além do hoje, para quando os custos mais realistas
tomam corpo — ele acredita que alcancem várias centenas de bilhões de dólares,
quando não a casa do trilhão:
— Guerra é um inferno. E o inferno tem custo alto — conclui.
Tem mais. Na semana passada, um relatório confidencial da
CIA endereçado à Casa Branca e revelado pelo Washington Post estima que o Irã
será capaz de aguentar o bloqueio naval americano por 90 a 120 dias, talvez até
mais, antes de sofrer um colapso econômico generalizado. Além disso, em franca
contradição com as cifras aleatórias de Trump, o relatório avalia que o Irã
ainda mantém ativos perto de 75% de seu estoque de lança-mísseis e 70% de seus
mísseis — ante 18% ou 19% pelas contas do presidente.
O tempo político de Trump tampouco é infinito neste ano de
eleições legislativas decisivas. Em novembro, o custo social da guerra e o
preço da gasolina vão às urnas. Uma famosa frase atribuída a Arnold. J. Toynbee
— “Civilizações morrem de suicídio, não por assassinato” — volta à atualidade
neste ano dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Veremos.

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