A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a
escalar as apurações em Brasília
Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo
Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na
“Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia
que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para
sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto
ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a
tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o
chefe do Ministério
Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de
cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet
enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu
propósito?
No escândalo do Banco Master,
Gonet tem diante de si o seu maior desafio. Caberá a ele avaliar as provas
colhidas na investigação e a proposta de colaboração premiada do
banqueiro Daniel
Vorcaro — que poderão provocar um abalo sísmico em Brasília. No
entanto sua disposição em mexer em vespeiros políticos tem sido questionada
tanto pela Polícia Federal como pelo ministro André
Mendonça, responsável pelo caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Por trás dessa desconfiança, está o fato de Gonet ter rejeitado pedidos de
apurações e suspeições dos ministros Alexandre
de Moraes e Dias
Toffoli, que mantiveram relação lucrativa com Vorcaro.
Na avaliação do procurador-geral, não há elementos para
investigar o aporte milionário orquestrado por Vorcaro num resort de Toffoli
nem o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório da advogada
Viviane Barci, mulher de Moraes, para defender interesses do banco em Brasília.
Se Gonet entende que faltam indícios mínimos de irregularidades, o relator do
caso na Corte, André Mendonça, tem dito a pessoas próximas que considera graves
os fatos envolvendo Moraes.
Esse descompasso também ficou evidente na prisão de Vorcaro.
Mendonça discordou de Gonet, que pediu mais tempo para analisar o caso e não
viu a mesma urgência em interromper a atuação do banqueiro, suspeito de manter
uma milícia particular para dar uma surra em um jornalista e invadir sistemas
de órgãos públicos. Colocar o dono do Master na Papuda provocaria consequências
incontornáveis. Por isso, o procurador-geral afirmou que não podia agir de modo
imponderado.
A posição garantista de Gonet foi um ingrediente considerado
determinante para ele ser alçado ao posto pelo presidente Lula e receber a
bênção de Moraes e do decano do Supremo, Gilmar
Mendes, de quem já foi sócio. Respeitado pelo saber jurídico, o
procurador-geral desempenhou papel central nas denúncias que levaram à
inelegibilidade e à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tramar um
golpe contra as instituições. Sabendo que sua cadeira pode projetá-lo para uma
vaga do STF, também entende que colecionar inimizades com integrantes da cúpula
dos Poderes Judiciário e Legislativo poderia dinamitar pontes importantes.
Ainda mais depois de a dupla Moraes e Davi
Alcolumbre, presidente do Senado, ter minado o caminho do advogado-geral da
União, Jorge
Messias, ao Supremo.
Ao acolher o pedido da PF para investigar o senador Ciro Nogueira,
expoente do Centrão, Gonet deu uma amostra de que pode avançar no terreno
político. A dúvida que ainda paira é se estará disposto a escalar as apurações
em Brasília. No passado, a figura do procurador se submetia às vontades do
soberano e era a voz jurídica do poder. No Brasil, com a Constituição de 1988,
o MPF ganhou mais autonomia e passou a ser o guardião da ordem jurídica e do
interesse público.
Essa é a régua que medirá Gonet no caso Master. Sua tarefa
não é agradar a ministros ou preservar alianças. Também não é substituir
prudência por heroísmo. É exigir provas com lastro, recusar pressões e tratar
poderosos e adversários com o mesmo padrão. Em Brasília, o canto das sereias
costuma vir disfarçado de cautela, amizade, conveniência ou mesmo expectativa
de poder. O desafio de Gonet será permanecer amarrado à sua missão para evitar
um desvio de rota.
*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em
Brasília

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