O último dos fantasmas que ronda Brasília aparece a Lula
nas noites insones do Alvorada
Não são apenas o novo mundos do trabalho com seus
entregadores, as relações com os militares e a crise do Supremo que tiram o
sono do presidente
Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua
primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do
Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de
mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”.
Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a
assombração.
A história do fantasma que apavorou a capital federal meses
antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A
República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely
Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo
civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de
pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São
Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas.
Um deles explicou à coluna. Estava lá para
“assar uma carne”, “conversar”, “confraternizar”. Entregadores, sem outro
vínculo que não o de seu trabalho – de forma que alguns desavisados chamariam
de “espontânea” –, inundaram a praça com seu destino comum, suas vidas,
esperanças e inseguranças. Todos invisíveis ao governo e às centrais sindicais.
Ali passeava um fantasma. Não o da mulher sem cabeça, mas o de uma esquerda que
não soube conversar com esse mundo, como mostrou a repórter Cristiane Barbieri
em sua série sobre a nova realidade do trabalho. De fato, na noite de
quinta-feira, não havia um único dirigente da CUT ou do PT na Praça Charles
Miller.
O fantasma da falta de conexão com o novo mundo do trabalho
não é o único a apavorar Lula e o PT neste 2026. A ele se junta o fantasma das
relações civis e militares. Se a oficialidade se descolou, em sua maioria, do
bolsonarismo em 2023, tampouco passou a nutrir simpatias pelo petismo, mesmo
após os ataques da extrema direita ao Exército, que se manteve na legalidade e
não embarcou no Plano Punhal Verde e Amarelo.
Uma terceira assombração resolveu reaparecer em Brasília. E
à luz do dia. Ela não se mostrava assim desde o governo de Floriano Peixoto, o
marechal que antecedera Prudente de Morais. Trata-se da crise do mundo político
com aquele habitado, hoje, por dez magistrados. Há muita gente se preparando
para assistir a um novo espetáculo, que até bem pouco só existia no mundo
sobrenatural. O desfile de decapitados de 2027 não descerá a Ladeira do Ascurra
– dizem esses áugures –, mas ocorrerá no STF. Por fim, o último dos fantasmas
que rondam Brasília é o que aparece a Lula nas noites insones do Alvorada. Ele
tem as vestes do Bolsonaro Acorrentado e sobe a rampa do Planalto.

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