sábado, 23 de maio de 2026

O CARMA POLÍTICO DE CIRO GOMES

Juliana Diniz*, O Povo

É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados

Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.

Seu grupo anunciou que adotará uma estratégia de isolamento. É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um Flávio Bolsonaro muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados em todos os partidos de sua base. Sua equipe de comunicação sabe bem disso.

Não consigo imaginar em desafio maior à estratégia de marketing, que a de isolar o dna bolsonarista de nomes como Capitão Wagner, Carmelo Neto, André e Alcides Fernandes. É ao lado dessas lideranças locais que Ciro Gomes tem aparecido, esbravejando sua disposição de combater o crime organizado, afirmando ao povo "que fica" e que está pronto a falar o que deve ser dito, doa a quem doer?

O abraço bolsonarista não é a única dificuldade. Seu comportamento em relação às mulheres deve ser explorado. Durante a semana, Ciro Gomes foi condenado pela justiça eleitoral por violência política de gênero. Em diversas aparições públicas, Gomes atacou a senadora suplente Janaína Freitas, afirmando que ela seria "assessora dos assuntos de cama", "cortesã", "assessora de alcova", e alguém que organizaria festas para o ministro Camilo Santana. Pelo conjunto dessas afirmações caluniosas e difamatórias, ele foi condenado, tendo a sentença sido proferida na última terça-feira, dia 19.

Não foi o único caso de misoginia. Em 2002, Ciro Gomes afirmou, sobre sua esposa na época: "o papel mais importante dela é dormir comigo". Em 2017, ao questionar a viabilidade de Marina Silva como candidata, afirmou que "o momento é muito de testosterona", descredibilizando a política por ser mulher.

Não deixa de ser irônico saber que, hoje, a principal opositora de Ciro Gomes seja Michelle Bolsonaro. Ela repudia a aliança e declara desconfiança. Um problema, considerando que, eleitoralmente, ela é o nome mais importante do bolsonarismo hoje, ainda mais depois das implicações de Flávio. Uma espécie de carma, vivido por um político com dificuldade de se renovar rumo a uma prática política menos agressiva e mais adequada a um país em que a maioria do eleitorado é feminino.

*Professora de Direito da UFCE

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