À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção,
inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras
Não há limite para o projeto de poder do bolsonarismo. Vale
duvidar das urnas eletrônicas, minar a credibilidade de autoridades e do
sistema eleitoral, confrontar Legislativo, Judiciário e até a ciência. Vale
tramar golpe de Estado e assassinato de presidente e vice eleitos, bem como de
ministro do Supremo Tribunal Federal. Vale incitar nação estrangeira a aplicar
tarifas, abrir investigação contra o Brasil por concorrência desleal e impor
sanções a personalidades da República. Agora, vale também buscar classificação
de organizações criminosas, caso de PCC e Comando
Vermelho, como terroristas e sujeitar o país a graves retaliações econômicas e
financeiras pela maior economia do planeta, segundo maior parceiro comercial
brasileiro.
O empreendimento bolsonarista para
desestabilizar economicamente o Brasil em proveito da própria família começou
há pouco mais de um ano. E não cessa. Após encontro com os irmãos Flávio e
Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente condenado por golpe de Estado, e
Paulo Figueiredo, neto do último general ditador, o secretário de Estado dos
Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que o país qualificou as duas facções
transnacionais brasileiras como Terroristas Globais Especialmente Designados
(SDGT, na sigla em inglês). No próximo dia 5 de junho, as designará como
Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). O par de ações representa uma
guinada nas relações bilaterais, ameaça a soberania brasileira e impõe riscos
às operações de empresas e bancos.
Em nota horas depois do anúncio, festejado pelo senador e
pré-candidato à Presidência, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP),
que reúne os maiores especialistas do país na área, alertou sobre os impactos
na soberania e autonomia do Brasil; na economia e no sistema financeiro; nos
mecanismos de cooperação regional e internacional. As organizações que integram
a rede Pacto pela Democracia advertiram sobre a possibilidade de “sanções,
pressão diplomática indevida e interferência em assuntos internos brasileiros”.
Os agentes econômicos temem que, se aplicada, a retaliação a
bancos, corretoras e meios de pagamento, Pix incluído, traga prejuízos ou
inviabilize comércio exterior, fluxo de investimentos e turismo para o Brasil;
eleve custos financeiros e de seguros; desvalorize o real; pressione risco país
e taxa de juros; restrinja acordos com organizações multilaterais, como o BID.
Não é exagero. Tudo isso pode acontecer, a depender da disposição de Donald Trump e
sua trupe.
A Colômbia sofreu implicações de 1997 a 2021, período em que
vigorou a classificação pelos Estados Unidos das Farc como organizações
terroristas. A União Europeia fez o mesmo entre 2002 e 2017. O Líbano ainda
convive com efeitos no câmbio, nos juros e nos investimentos, em decorrência da
designação do Hezbollah. Em julho passado, os Estados Unidos impuseram sanções
a dois grandes bancos e uma corretora de valores do México, acusados de
movimentação financeira de cartéis de drogas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, destacou que o “ato
eleitoral” do governo americano pode prejudicar a economia do Brasil. Ele já
foi procurado por empresários e banqueiros temerosos. O promotor Lincoln
Gakiya, do MPSP, maior autoridade do país no enfrentamento ao PCC, já havia
afirmado que a mudança imposta pelos Estados Unidos mais atrapalha que ajuda no
combate ao crime organizado. Isso porque o compartilhamento regular de
informações de Polícia Federal e MP brasileiros e DEA e FBI deve cessar, em razão
da classificação sigilosa imposta por CIA e Pentágono nos assuntos de defesa.
É curioso como os filhos de Bolsonaro, em nome da disputa
eleitoral, agiram por medidas que Jair
Bolsonaro, quando presidente da República, não reivindicou. Governado por
bolsonaristas desde 2018, o Rio de Janeiro viu milícias e facções do tráfico se
expandirem até o Legislativo. Aliado de Flávio
Bolsonaro e do ex-governador Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar,
ex-presidente da Alerj, está preso por envolvimento com o CV. O próprio Flávio
ainda não conseguiu esclarecer as condições contratuais nem o caminho do
dinheiro que Daniel Vorcaro, a pedido do senador, destinou à cinebiografia de
Bolsonaro pai. O escândalo do Banco Master alcança fundos de investimento
suspeitos de lavagem de dinheiro do PCC.
À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção,
inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras. E
hipótese remota, quase inexistente, de eficácia no combate às facções.
Especialistas são unânimes em afirmar que o crime não arrefeceu, para ficar em
dois exemplos, nem na Colômbia nem no México, em razão das retaliações impostas
pelos americanos.
O Brasil tem o desafio de combater o crime e a violência desmedida
de PCC, CV e demais grupos armados espalhados pelo país — 88 ao todo, segundo o
Ministério da Justiça. Há de haver coordenação entre instâncias de governo,
cooperação com outros países, inteligência e estratégias de asfixia financeira
das facções, retomada de territórios dominados, presença do Estado nas
comunidades. São medidas que prescindem da intervenção dos Estados Unidos, que
ameaça não o governo Lula, mas todo e qualquer presidente que o Brasil venha a
ter enquanto vigorarem as medidas.

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