Senador passou por rachadinhas e relações com a milícia,
e aí está, competitivo nas pesquisas
O que realmente interessa no filmegate envolvendo Flávio
Bolsonaro e Daniel Vorcaro é o tamanho do impacto que o escândalo terá nas
intenções de voto no pré-candidato à Presidência pelo PL. A conversa entre
Flávio e Vorcaro já causou estrago na largada. Fez preço ontem, com o Ibovespa
fechando em queda de 1,8%, e o dólar subindo 2,3%. Site de bets fora do país
mostrou diminuição das apostas numa vitória do senador, e a curva de juros
futuros estressou. O dia foi chamado de “segundo Flávio Day”, em referência ao
“Flávio Day” original, em dezembro, quando o lançamento de sua candidatura
causou estrago por desbancar Tarcísio de Freitas, o preferido do mercado.
O mercado já estava de mau humor com
resultados da pesquisa Quaest, que mostrou alguma recuperação na aprovação de
Lula, e com as medidas eleitoreiras de impacto fiscal, como o fim da taxa das
blusinhas. O auge foi o áudio constrangedor do senador da República cobrando
dinheiro do banqueiro enrolado — e, sim, tem dinheiro público na teia de
Vorcaro com os recursos que ele tomou dos fundos de Previdência. A Faria Lima
viu Lula mais fortalecido e estrilou.
É fato que a campanha de Flávio já sangra e sangrará por um
bom tempo, mas a questão aqui é se ela tem musculatura eleitoral suficiente
para resistir. Flávio tem hoje os votos da extrema direita e pode perder
intenção de voto entre esse grupo, muito suscetível ao discurso do político
antissistema — perdão pela contradição em termos. Romeu Zema, do Novo, e Renan
Santos, do Missão, já sacaram isso e foram para cima. O ex-governador de Minas
fez sucesso com esse eleitorado ao criticar o STF, coisa que Flávio não pode
fazer porque, entre outras encrencas, tenta se mostrar moderado. Flávio também
pode ter alguma dificuldade com o público de centro, que representa um terço do
eleitorado e é pendular: uma hora flerta com a direita, outra com a esquerda.
Flávio está na luta por esse eleitor mais desconfiado, e as relações mal
explicadas com Vorcaro certamente não o ajudam.
Pode até ser que não se comprove nenhum ato de ofício de
Flávio a favor de Vorcaro, nos moldes do seu aliado, o senador Ciro Nogueira,
que, segundo a Polícia Federal, teria ganhado mesada em troca da emenda que
favorecia o banco. Mas os adversários saberão explorar bem o caso, com pedidos
de criação de CPI, investigação e cassação. Além disso, Flávio não conseguiu
até agora explicar a relação com Vorcaro, e isso será um fantasma. As
investigações da Polícia Federal mostram que Vorcaro se aproximava dos poderosos
em troca de vantagens e proteção. Por óbvio, o financiamento ao filme sobre
Jair Bolsonaro se dá nesse contexto, e não por interesse pela cultura nacional.
A encrenca é grande, mas vale cautela na análise. Flávio tem
um considerável telhado de vidro, mas até hoje foi resistente. Passou por
rachadinhas e relações com a milícia, e aí está, competitivo nas pesquisas.
Sangrará, mas também terá tempo para se recuperar. Em tempos de polarização,
contará com a ajuda de muito eleitor louco para esquecer.

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