No que Vorcaro investia ao investir no filme sobre
Bolsonaro?
Caso revela um senador da República que subordina o
mandato a um acordo obscuro entre privados
“Flávio diz dinheiro privado, mas verba do Master
vinha de operações do banco com dinheiro público”
Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado
com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel
Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de
suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e
mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e
autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo
sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu
como relator do caso no STF.
A bateção bolsonarista de cabeças foi
intensa e pública, até que Flávio plantasse a versão que ora prospera – a do
“contrato de confidencialidade”. Não podia falar a respeito do lance porque
impedido formalmente, o que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se
“sem nenhum contato pessoal” com o banqueiro. Um senador da República que
subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo
entre privados que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio
de empresa laranja metida com PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido
pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.
Operação que deixaria de ser fedida – sob a suspeita de que
haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de
remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme.
Nunca se tratou de filho pedindo dinheiro para produção
sobre o pai. Experimentasse você pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem
a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e cotado como
candidato à Presidência, alguém influente sobre essa escolha; alguém a ser
agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição também, cujo mandato foi, segundo a
PF, instrumentalizado a serviço de interesses vorcáricos.
Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza
político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma. O
que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava,
ao comprar parte do resort?
Pode Flávio fazer essas perguntas? No que Vorcaro investia,
ao investir no filme?
Existe o padrão vorcárico de estabelecimento de relações.
Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera
da prisão do cara – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo,
proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos
fraudulentos.
Flávio fala como se suas conversas com o sujeito fossem
restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; se intensificaram em
2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos
íntimos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a
gente.”) depois de as investigações sobre o banco se tornarem públicas, o que
ocorrera entre agosto e setembro de 25.
Naquele momento, o senador da República deveria ter feito
cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que
o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios.

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