Cúpula do PL vê prazo de 15 dias para avaliar viabilidade da
candidatura de Flávio após conversas com Vorcaro
Desconfiados das versões apresentadas pelo senador e com
medo de novos fatos, ala do partido já defende a busca por opções ao Planalto
Pressionado pelo próprio partido a explicar sua relação com
o banqueiro Daniel
Vorcaro, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio
Bolsonaro, admitiu ontem mais um fato que havia sido omitido dos próprios
aliados. Além de pedir dinheiro ao banqueiro para uma cinebiografia de seu pai,
o ex-presidente Jair
Bolsonaro, o senador confirmou que fez uma visita ao dono do Banco Master
depois de ele ser preso, no fim do ano passado. À época, Vorcaro usava
tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar São Paulo. A nova revelação
abalou as bancadas do partido no Congresso e consolidou o entendimento, para
parte dos colegas, de que um acontecimento novo pode sepultar a candidatura do
senador.
Publicamente, integrantes do PL trataram o
caso apenas como um novo revés, mas as justificativas apresentadas foram
consideradas pouco plausíveis. Integrantes da cúpula avaliam que, de 10 a 15
dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como
candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.
‘Um ponto final’
Flávio sustenta que só foi ao encontro do dono do Master
para colocar um “ponto final” em questões relacionadas ao patrocínio do longa.
Como revelou o Intercept Brasil, Vorcaro autorizou o repasse de R$ 61 milhões
ao filme “Dark horse”, transferência investigada pela Polícia Federal (PF). A
mesma reportagem revelou áudios em que Flávio cobra parcelas atrasadas do
banqueiro.
— Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava
restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse
Flávio, na manhã de ontem, minutos depois de o encontro ser revelado pelo
portal Metrópoles. — Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final
nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave
como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o
filme não correria risco.
O senador afirmou que o único assunto tratado com Vorcaro,
tanto por telefone quanto pessoalmente, foi o financiamento do filme. Segundo
relatos feitos ao GLOBO, a avaliação interna é que a candidatura de Flávio
passaria a ser considerada “inviabilizada” se aparecerem fatos que contradigam
a versão de que sua relação com o dono do Banco Master esteve restrita
exclusivamente ao longa.
A revelação da visita se junta a uma série de turbulências
que a campanha de Flávio vem enfrentando antes mesmo de vir à tona sua
proximidade com Vorcaro. A escolha de um ex-policial civil para chefiar a
comunicação havia irritado uma ala do PL. A postura do senador durante operação
que mirou Ciro Nogueira (PP-PI), há duas semanas, ajudou a afastar parte do
Centrão, que deve optar pela neutralidade na corrida presidencial. Após a
revelação da troca de áudios entre o senador e o banqueiro, versões desencontradas
do pré-candidato, de Eduardo
Bolsonaro e de produtores do projeto, como o deputado Mario
Frias (PL-SP) e a empresa Go Up, levantaram dúvidas sobre a veracidade
das informações.
Depois de passar os últimos dias em reuniões reservadas com
Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério
Marinho, Flávio reuniu ontem cerca de 70 deputados e senadores do partido
em Brasília. Aliados ainda demonstram incômodo com a condução política do caso
e com a forma como o senador reagiu publicamente às revelações.
Ao tentar reverter a situação para o seu eleitorado, o
pré-candidato chegou a divulgar o trailer do filme nas redes sociais.
Interlocutores próximos a Valdemar afirmam que cresceu na cúpula do partido a
avaliação de que o PL precisa começar a olhar opções caso novos desdobramentos
atinjam o filho do ex-presidente.
Qualquer mudança, porém, teria que passar pelo crivo do
ex-presidente, que está em prisão domiciliar, onde mantém diálogo frequente com
Flávio.
No caso de a candidatura não se viabilizar, hoje três
figuras aparecem como principais possibilidades: Michelle Bolsonaro, a
senadora Tereza
Cristina (PP-MS) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da
pré-campanha de Flávio. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado
da família, Silas Malafaia resume o ambiente da pré-campanha.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver
comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto,
estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se
não tiver, vamos com Flávio.
Outros preferem fazer defesa enfática do candidato do PL à
Presidência.
— Não existe nenhuma chance de Flávio ser substituído — diz
Marinho.
Os últimos acontecimentos geraram desconforto inclusive
entre aliados da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo, próximo
de Eduardo, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de
“comunicação e política”. Já Eduardo admitiu em uma transmissão ao vivo que o
grupo demorou a reagir justamente para evitar contradições.
A ordem agora dentro do PL é reorganizar o discurso e evitar
que Flávio fique acuado. O entorno do senador defende ampliar agendas públicas,
reforçar viagens pelo país e intensificar encontros com empresários. Ele viaja
para São Paulo hoje, onde deve ter encontros com a Faria Lima.
Desculpas e cobranças
Durante a reunião com parlamentares do PL, Flávio pediu
desculpas por não ter explicado antes detalhes da relação com Vorcaro, afirmou
diversas vezes que “não há mais nada” além da negociação envolvendo o filme e
tentou convencer os colegas de que a crise pode ser superada politicamente.
Flávio ouviu cobranças e parte dos presentes queria entender se Flávio já havia
contado tudo o que sabia ou se o partido ainda corre risco de ser surpreendido.
Flávio também tentou sustentar a tese de que jamais teria
deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se acreditasse estar
diante de algo ilegal. Para integrantes do PL, essa passou a ser a principal
linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que houve erro
político e imprudência, mas não consciência de eventual irregularidade.
Mais tarde, em evento da Marcha dos Prefeitos, que ocorre em
Brasília, o presidenciável decidiu alegar que estava sendo “perseguido”, mas
sem explicar em detalhes o encontro que teve com o dono Master.

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